Deus me livre e guarde de falar mal dos mortos. Nem mesmo evocar o que não for agradável. Apenas lembra tradições orais, ressuscitando figuras esquecidas.
Permitam que apresente Sua Excelência o Dr. Antônio Francisco Pereira de Carvalho, 19º. Presidente do Rio G. do Norte, de julho de 1852 a outubro de 1853.
Era homem inteligente, lido, bacharel e pernambucano nato, cerimonioso, correto, sisudo. Mas impulsivo, malcriado e atrabiliário quando estava zangado. E se zangava frequentemente.
Chamavam-no Carvalho Amarelo…
Saindo do Rio Grande do Norte foi governar Piauí e lá faleceu, em agosto de 1855.
Deixou, administrativamente, planos, sonhos e sugestões. A fala que leu na Assembléia Provincial, a 17 de fevereiro de 1853, merece referências. Entre outros desejos impassíveis e lógicos propunha um verdadeiro jardim-alameda entre a Ribeira e a Cidade. Como a técnica dos natalenses é derrubar árvores e abrir espaços amplos ao sol causticante, Carvalho Amarelo fica sendo um dos precursores do bom-senso, com o seu passeio-parque em 1858.
Só falava gritando, gesticulando, mesmo nos assuntos triviais. Pedia um copo d’água como quem está comandando uma batalha.
Quem o chamasse Carvalho Amarelo apanhava uma surra. Pois, alguém o chamou, face a face, e ganhou ainda dez mil réis.
Vou contar a estória. E uma estória que não vem na história.
Houve uma festa familiar na Rua da Palha (Vigário Bartolomeu). Muita gente, música e uma assistência incontável, do lado de fora, espiando o sucesso.
De repente, o grave Carvalho aparece numa janela. Uma voz berra, inconfundível, clara, chibateando: Carvalho Amarelo!..
O Presidente roncou de ódio e as ordenanças voaram em procura do sacrílego.
O rapaz sumira como fumo ao vento. Carvalho Amarelo fez espalhar a notícia de que daria dez mil réis a alguém que denunciasse o moleque. E com todo segredo, segurança e discrição ao delator.
Dias depois, na Casa do Governo, um rapaz apareceu, saudou, e perguntou ao presidente se era verdade a estória dos dez mil réis e a certeza da impunidade ao denunciado que ficaria secreto. Certo que sim.
Pois, senhor Presidente, quem chamou Carvalho Amarelo fui eu!
Carvalho – Seu atrevido!
Estou arrependido e confio na palavra de honra de V. Excia.
Carvalho Amarelo, homem de outro tempo, não pestanejou. Tirou cinco notas de dois mil réis e entregou ao moço.
Dizem que este ainda recebeu cinco mil réis. Apostara chamar Carvalho Amarelo ao próprio Presidente, na bochecha, e nada sofrer. Cumprira a promessa.
Carvalho Amarelo, entre outras virtudes, escondidas numa neurasthenia trepidante, era caridoso. Nunca recusou uma esmola.
A República, 16 de março de 1943.
Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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