David Maurince Hassett : professor confessa sua paixão pelo Nordeste Brasileiro

Ana Tersuliano
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05/08/2024 às
12:30
Foto: Argemiro Lima

Naturalista troca floresta britânica por Santuário Ecológico em Pipa. Aos cinco anos. de idade sentiu o apelo forte e mágico da natureza sobre si mesmo. Na pequena e charmosa cidadezinha de Loughborough, cercada pela floresta de Charnwood, a maior da Inglaterra, a cerca de 200 km de Londres, o pequeno David gostava de passear pelos bosques e parques, visitar museus de História Natural e colecionar penas de aves, flores, conchas e fósseis, montando um pequeno museu geológico, ele mesmo, no quintal de casa, usando o depósito onde os pais guardavam as ferramentas de jardinagem. Mais tarde, aos 37 anos, o professor e ecologista David Maurice Hassett começou a construir seu próprio Santuário Ecológico, na praia de Pipa, litoral Sul do Rio Grande do Norte, para preservar, por sua conta, 90 hectares da exuberante e escassa Mata Atlântica, Aberto ao público em 1991 e em 2001 tombado pelo Município de Tibau de Sul, o Santuário Ecológico é reconhecido como posto avançado da Reserva Biosfera da Mata Atlântica, atraindo ao local intensa movimentação turística e atividade educação ambiental proporcionadas a pessoas de todas as idades, desde que amantes da natureza, bem como projetos de pesquisas científicas. E, mais ainda, sobressai-se como a obra consagradora de um homem que dedicou 33 anos de sua atribulada vida ao ensino, à atuação em defesa da cultura, do patrimônio histórico e, sobretudo, da ecologia.

Aos 60 anos, o professor e ecologista David Maurice Hassett, cidadão inglês, natalense, título conferido em 2006 pela Câmara Municipal, Cidadão Honorário de Tibau do Sul, e norte-rio-grandense pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, não gosta de falar sobre si mesmo, exceto se for para comentar sobre o trabalho ao qual se entrega por inteiro. Caminhando pelas trilhas do santuário, muitas vezes sendo ele mesmo guia para os visitantes, em grande parte alunos de escolas públicas ou universitários, de certa forma este homem que exerceu o cargo de Agente Consular Honorário do Reino Unido em Natal até há cerca de dois anos, quando se afastou por motivos de doença, recorda da cidadezinha inglesa onde seus familiares ainda vivem. Criado em contato íntimo com a flora e a fauna – sua mãe ainda hoje alimenta pássaros silvestres com frutas, grãos e amendoim no jardim de casa, em Loughborough, banquete ofertado às vezes às raposas da floresta, que também comparecem ao jardim da sua mãe e por ela são igualmente alimentados – David desde cedo aprendeu a cultuar o amor à natureza. “Tive sorte de cair naquele lugar cercado de natureza”, conta o ecologista, lembrando que foi morar em Loughborough ainda criança, depois de uma fase difícil em que seu pai, engenheiro químico do Exército britânico, ficou desempregado no pós-guerra. Aos nove anos, o pequeno David apaixonou-se pelo Brasil quando, numa gincana da sua escola primária, descobriu um livro antigo do explorador inglês Henry Walter Bates, “Um naturalista no Rio Amazonas”, no qual o autor conta a saga de ter percorrido durante 11 anos a floresta Amazônica em busca de espécimes para os museus europeus. “Este livro traz um registro fascinante sobre as comunidades ribeirinhas, os seus costumes, a flora e a fauna tropical”, frisa. Lembra ainda que, deslumbrado pelas gravuras contidas nesse tomo empoeirado, passou a pintar o cenário percorrido pelo escritor, “com árvores gigantescas e folhagem exuberante escondendo índios com zarabatanas”, transformando em ateliê o seu pequeno quarto, que mal comportava a cama. Hoje em dia David não pinta mais. Contenta-se apenas em apreciar e incentivar as atividades artísticas, em qualquer lugar em que esteja.

Apaixonado por artes e ciências

Confessa que, durante muito apo, sonhou em participar de edições pela Amazônia, fascínio que aumentava na medida em que assistia filmes de aventuras pela televisão. O passaporte para conhecer o Brasil, porém, só lhe caiu nas mãos em 1976, já formado em Economia pela Universidade de Londres e ganhando a vida dando aulas em Faculdades de Administração, quando se casou com uma brasileira, natural de Minas Gerais, que trabalhava na Embaixada do Brasil na Inglaterra. Aos 30 anos, em 1979, David chegou enfim ao Brasil, país de onde não deseja sair mais, admite. “Permaneci alguns meses com sogros, em São José dos Campos, antes de mudar para o Nordeste, ansioso para conhecer seus costumes e tradições, certo de que esta região era o coração autêntico do Brasil”, conta. Transferiu-se de Recife para Natal dois anos depois, em 1981, para abrir a Cultura Inglesa com o objetivo não apenas de promover o conhecimento do idioma inglês e ajudar a estreitar os laços entre o Reino Unido e o Brasil, mas também fomentar as artes e as ciências.-

A Cultura Inglesa não foi uma aventura de percurso, Em Londres, David concluiu o curso de licenciatura no ensino de inglês pelo Trinity College, o que lhe capacitou para realizar esse empreendimento. Trouxe ainda na sua bagagem o domínio sobre os idiomas francês, espanhol e russo, antes de aprender português. Também trazia o diploma de outros cursos de nível superior, além do de Economia, com enfoque em Relações Internacionais: Administração, pelo Chartered Institute of Administrators; Publicidade, pelo Institute of Marketing; e Comércio Exterior, no Institute of Export. Sua ânsia de aprender e ensinar sempre mais o levou a realizar, já em Natal, o mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFRN. Depois de 28 anos radicado no Rio Grande do Norte, o naturalista dedica a maior parte do seu tempo à preservação da paisagem e à educação ambiental. Além do Santuário Ecológico de Pipa, David vem atuando, desde 1994, como representante permanente do Jardim Botânico de Londres na Associação Plantas do Nordeste (APNE). A APNE desenvolve um programa de intercâmbio científico por meio de uma parceria anglo-brasileira, envolvendo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Real Jardim Botânico de Kew, da Inglaterra, universidades, institutos governamentais de pesquisa e ONGs, voltado para o estudo da biodiversidade e uso sustentável dos recursos vegetais nativos do Nordeste Brasileiro.

Prêmios e honrarias

O professor e ecologista David Maurice Hassett não gosta de falar sobre si mesmo, é avesso à autopromoção, mas não pode esconder de ninguém que, em resposta ao seu trabalho, foi condecorado em 1998 pelo Jardim Botânico de Londres pelos serviços em favor da colaboração científica entre o corredor cultural entre a Inglaterra e Brasil. Em 2003, o professor e ecologista David Maurice Hassett foi homenageado pela ABAV/RN (Associação Brasileira de Agentes de Viagem/RN) pelo seu pioneirismo no ecoturismo estadual. Também em 2003, foi laureado com o Prêmio HSBC pelo projeto de educação ambiental e preservação da flora brasileira. “Sonho em poder ajudar na implantação de uma série de parques e corredores ecológicos ligando o Rio Grande do Norte aos estados vizinhos, garantindo assim a preservação das paisagens mais deslumbrantes”*, afirma. “Também gostaria de ver implantado o corredor cultural entre a rua Santo António, na Cidade Alta, até a avenida Duque de Caxias, na Ribeira, transformando a área em vibrante palco de acontecimentos artísticos e ponto de encontro entre o erudito e o popular, entre o boêmio e o sagrado, entre o passado e o presente, restabelecendo-o, enfim, como autêntico coração da cidade”.

Militância em favor da natureza

Quando os portugueses chegaram às novas terras, no século 16, encontraram um país tomado por uma floresta virgem que se estendia por quase toda costa do Atlântico. Para alguns, aquilo era a própria visão do paraíso na terra. Palmeiras e outras árvores incontáveis, algumas com até 50 metros de altura, com galhos carregados com uma profusão de bromélias, samambaias e orquídeas, além, é claro, da presença, também incontável, de belos e exóticos animais. Tucanos, tamanduás, papagaios, antas, preguiças, macacos, etecétera. Nos dias presentes, a Mata Atlântica é o segundo ecossistema mais ameaçado de extinção do mundo, perdendo apenas para as quase extintas florestas da ilha de Madagascar, na África. Quando David Hassett conheceu Pipa, na década de 80 do século 20, deparou-se com falésias cor-de-rosa e faixas contínuas de mata verde, uma mistura de cores que lhe encantou, “parecia uma ilusão de ótica”. Brotou no peito do ambientalista o desejo de salvar pelo menos parte daquele patrimônio natural, que, aliás, logo passou a ser avidamente explorado pelo turismo e pela especulação imobiliária. Foi isso que fez David se envolver com o projeto do Santuário Ecológico, investindo uma soma de recursos que prefere não mencionar. Em 1991, o ecologista quis compartilhar os encantos do pequeno paraíso que conseguiu preservar em Pipa, criando um Jardim Botânico, espaço de visitação intensiva dentro do Santuário Ecológico. Logo conseguiu também parcerias e adesão de instituições e pesquisadores, que comparecem ao local para desenvolver atividades científicas, como identificação e documentação das plantas da região e a formação de coleções vivas. Além de vegetação natural, o visitante do Jardim Botânico poderá conhecer coleções de espécimes representativas da flora regional, como orquídeas e bromeliáceas. O local dispõe de infraestrutura básica, com banheiros, acomodação para pesquisadores. e alunos, salas de trabalho e trilhas sinalizadas com desenho de animal, planta ou elemento folclórico. A fauna nativa de grande porte sumiu, mas o visitante ainda encontra soim, raposa, guaxinim, gato-do-mato, tatu, peba, tamanduá-mirim, coelho, além da fauna marítima, com destaque para os golfinhos e tartarugas.

O Projeto Tamar, de preservação de tartarugas marinhas, fincou uma base experimental em Pipa com apoio do Santuário Ecológico.

O cidadão britânico não se cansa de participar de inúmeras iniciativas relacionadas com a preservação do meio ambiente. Ajudou a criar ou faz parte dos Clubes de Observadores de Aves do RN, Clube de Espeleologia do KIN, Fundação Amigos do Lajedo de Soledade e Clube dos Amantes da História Natural.

Com informações: Novo Jornal, matéria Moura Neto, publicado no caderno cidades no dia 17/11/2009.

Na condição de colaborador do blogdocobra, quero prestar esta homenagem ao meu amigo, que muitas vezes foi orientador e com quem aprendi muito sobre educação ambiental e preservação do meio ambiente. David Maurice Hassett é um exemplar e notável cidadão, com várias cidadanias: britânica, norte-rio-grandense, natalense e tibauense. Com relevantes serviços prestados por onde passou, o perseverante professor David é merecedor de todas as homenagens e honrarias. Seus diversos ensinamentos são motivos de grande orgulho para todos nós.

Ele é fundador da Cultura Inglesa em Natal, do Santuário Ecológico na Pipa e do Instituto INSPIRA, além de ser atualmente proprietário da Reserva Ecológica Stoessel de Brito, na cidade de Jucurutu/RN. David também ajudou a fundar e colaborou com diversas entidades culturais em nosso estado, dentre elas o Instituto IAPHACC, do qual é Conselheiro Diretor. Além disso, é o autor da criação da primeira Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) estadual do Rio Grande do Norte.

Com muita humildade e respeito pelas pessoas, David criou um imenso círculo de amizades na cidade e no estado. Seus sonhos de infância, somados aos seus feitos e ações desenvolvidas ao longo de sua vida, tornaram-se realidade e o levaram a um patamar em que podemos afirmar que este cidadão, com várias cidadanias, é atualmente um dos maiores defensores da preservação do meio ambiente no Nordeste Brasileiro. Um imenso ser humano, construtor de legados, ensinamentos e belíssimos exemplos.

Ricardo Tersuliano (Cobra)

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