A Vila de São Bento

Ana Tersuliano
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21/08/2024 às
12:17

 

A Serra de São Bento se chamou inicialmente Serra do Pires, ainda em documento de junho de 1805, dizia-se do defunto Pires ou São Bento. O núcleo de povoação, no cimo da encosta, cresceu sempre e depressa tornou denso e conhecido. A feira atendia necessidades que se espalhavam em muitas léguas derredor. Não havia quase competição nos arredores e sozinha, a povoação impunha preços e decidia com os argumentos de uma economia vitoriosa. A 1º de março de 1852, o deputado Jeronimo Cabral Raposo da Câmara apresentou um projeto mandando desmembrar São Bento do município de Goianinha e elevando a povoação ao predicamento de vila.

O projeto foi Lei sob o nº 245, assinado a 15 de março de 1852 pelo Presidente da Província, Dr. José Joaquim da Cunha. Vila de São Bento, não modificou o renome possuído. Era, dizia a tradição, sede de barulhos contínuos, habitada por gente de sangue nas gueiras, brigando por coisa alguma e decidindo tudo a faca de ponta e tiro de bacamarte. Como ninho guerreiro. Povoado de homens d’armas. São Bento espalhava terror. Aí morará o Coronel João de Oliveira Mendes, espécie de senhor feudal, mandando uma tropa de escravos, dispondo de prestígio, alicerçado nas fuzilarias incessantes comandadas pelo seu guarda costa João Nunes, vulgo Aliéres Juca. Criminoso seguido pelos policiais que chegasse a Serra de São Bento, Estava Valido. Ali só os castigos de Deus. Ninguém ousava ultrapassar os limites do município, fremente de energia incontida, materializada em ataques furiosos e investidas bárbaras, como se acampada acidentalmente no seio daquelas serras acolhedoras.

Quando vivia João de Oliveira Mendes nunca se pensou em tratar o patenteado explicava, risonhamente que muita gente mandando era caminho errado. Bastava um só. Mandava sozinho. Falecendo em Cajupiranga. Em junho de 1850, dois anos depois São Bento era município, com honras de sede, Matriz e títulos. Curiosamente, abrandou o ambiente áspero e os temperamentos mais acesos e rudes serenaram. Era a Vila que possuía maior número de armas. Quem não ostentava uma faca de ponta ou atravessava o largo sem um Clavinote dormindo no ombro estava desmoralizado.

Bruscamente esse cenário se modificou a paz, envolveu a serra, famosa pela turbulência. Dizem ter sido a palavra de um frade, Frei Alberto de Santa Augusta Cabral, antigo coadjuntor da freguesia, ainda nas épocas terminais de 1850. Outros indicam Frei Serafim de Catania, o autor da pacificação de gente tão brava. Depois de sermão longo e patético, com apelos, que amoleciam aquelas almas de mosqueteiros, o frade mandou abrir uma vala, perto da igreja e convidou o povo a jogar ali suas armas. Em poucas horas a enorme escavação se enchia de facas, chucos, facões, pontas de lanças, boca de sino, espingardas de cano esguio, troxadas de aço, trabalho braguês de confiança, pistolas de 2 canos, garruchas aparelhadas em prata, punhais de laminas finas, estreitas e flexíveis como floretes, que furam e não deixam sangue na folha, espada de copos, espadagões de cavalaria, vinte tipos antigos e novos de ferir e matar. Sobre essa base de tanto ferro criminoso, o frade lançou areia e amaldiçoou quem retirasse qualquer objeto sepultado para maior glória de Deus e sossego do próximo.

O desenvolvimento de anta esfolada na orla das estradas que levavam os produtos, dos vales do litoral norte-rio-grandense, estabelecendo ativo intercambio com a Região Paraibana, foi solapando o prestígio de São bento, sua grandeza se dissipava de recordações e lembranças dos antigos senhores de modo a vontade, dezesseis anos com o título de vila cansaram  São Bento que nem se defendeu quando o deputado Jeferson Mirabeau de Azevedo Soares, propôs na Assembleia Legislativa Provincial, a 7 de março de 1868, a transferência da sede de São Bento para a povoação  de Nova Cruz, erguido em Vila. Passou o projeto a ordem do dia em 7 do mesmo março. No dia 9 e 10 votaram a primeira, segunda e terceira discursões, findou. A Lei nº 609, de 18 de março de 1868, com a assinatura do Dr. Gustavo Adolfo de Sá, destronava São Bento de suas Glórias Sociais e administrativas, entregando a Nova Cruz o direito de mando. Assim passaram as glórias de São Bento, com seus homens valentes e suas armas posta em serviço de Deus.

Com informações: ACTA DIURNA DE LUIZ DA CÂMARA CASCUDO, Jornal a República de 03/01/1940.

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