No lado da capela-mor da Catedral, à direita, está uma lápide com o nome do Dr. Luiz Antônio Ferreira Souto.
Raros olhares visitam a inscrição sepulcral. “Les Morts Vont Vite”. O Doutor Souto partiu há quase meio século. Seus amigos pessoais não existem. As reminiscências se diluem, lentamente, ao sopro de outras recordações, outros assuntos, outros motivos de atenção. Mas os cidadãos que ouvem a missa dominical e passeiam olhares nem saberão que espécie de homem, vivo como uma brasa, espirituoso, mordaz, está com os ossos guardados detrás daquela placa de mármore.
Foi o melhor repentista da cidade. Ninguém respondia ou atacava com a graça feitiçeira, o chiste irresistível do Doutor Souto, mui digno juiz de direito da comarca do Natal.
Nascido no Assu em 18 de março de 1842, bacharel em 1865, sete vezes deputado provincial, político do partido conservador, advogado, procurador da tesouraria, promotor público em Natal quando da proclamação da república, juiz de direito de Nova Cruz, desembargador no efêmero tribunal superior da relação do Rio Grande do Norte em agosto de 1891, juiz de direito do Natal em 1892, membro da segunda constituinte estadual nesse ano, aqui faleceu aos 27 de agosto de 1895.
Sendo juiz municipal em São José de Mipibu, num requerimento do Dr. Manoel Januário Bezerra Montenegro, que governaria a província, como vice-presidente, deu um despacho de tal forma que o peticionário, reunindo papéis e letras, imprimiu o episódio num folheto e o fez distribuir pelas comarcas do Império. O imperador D. Pedro II mudava de conversa quando aparecia o nome do Dr. Luiz Antônio Ferreira Souto para a nomeação de juiz de direito. E o Dr. Souto foi juiz, e muito merecidamente, no regime republicano.
Desabusado, conversador original, deixou anedotas saborosas de ineditismo, algumas inulgáveis mas transmitidas na literatura oral da cidade.
Morava na Rua da Conceição, no sobrado, hoje n°573, onde faleceu. Aí recebia os amigos e contava coisas engraçadas, repetidas indefinidamente pelos admiradores. Misturava várias bebidas numa grande poncheira, remexendo-as com uma imensa colher que ele denominava pau de mexer bestas. Quando um pobre lhe batia à porta lamuriano, o Dr. Souto informava: dinheiro não tenho. Tenho aqui uma bebidinha. Você quer?
Daí a minutos o pedinte saía lambendo os beiços e estalando a língua.
Em São José de Mipibu, numa formação de culpa, ouvia a velha Alexandrina Canela, testemunha presencial, loquaz e detalhista. Lá para as tantas o Doutor Souto abriu uma Bíblia em cima da mesa, dizendo: está tudo muito bem, só a senhora deve jurar aqui em cima dos evangelhos como está dizendo unicamente a verdade, nada mais que a verdade!
A velha, recuando a mão que se estendia magra:
Deus me livre, seu doutor! Jurando, a história é outra…
E contou diversamente esmoler a acessível, popular e querido, o Doutor Souto ostentava a mais notória de todas as incredulidades. Não ia à igreja nem aceitava credo algum.
Das telhas para cima, só acredito em gato, dizia ele, não prevendo o avião.
Quase agonizante, consentiu em receber o Vigário João Maria. Ao avistá-lo arquejando numa dispnéia horrível, teve ainda fôlego para balbuciar:
Ah, meu padre… dê-me aí um passaporte para o outro mundo…
Quando perdia um amigo não faltava ao enterro. Comparecia todo de perto, sisudo, composto, grave. E fatalmente segurava na alça do féretro. Essa cerimônia durava alguns minutos porque, logo ao primeiro movimento de fadiga, surgiam mãos solícitas para substituírem o ilustre magistrado em seu piedoso mister.
Numa vez, entretanto, seguro ao caixão que guardava o corpo do seu compadre Chico, morador na Ribeira, já subindo a ladeira da Cruz (Junqueira Aires), ninguém aparecia para livrá-lo do peso. Resfolegando, pisando lento o empedrado da rua íngreme, multiplicava os olhares num apelo de reforço. Ninguém se candidatava. Finalmente, suado, vermelho, esgotado, Doutor Souto conduziu, desde a Ribeira até as portas da Matriz, o cadáver do compadre Chico. Pondo o ataúde nos suportes, liberto do encargo, enxugando-se, com respiração sincopada, não deixou de desabafar: compadre Chico! Até aqui vos trouxe. Daqui em diante, o diabo que vos carregue…
A República, 18 de março de 1942.
Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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