(01/01/1995 – 01/01/1999 – 01/01/1999 – 01/01/2003)
Na campanha de 1960, com cara de menino e óculos de tartaruga quase a lhe cobrirem o rosto, foi assistente privilegiado nos palanques dos grandes comícios, onde a disputa pelo poder travava uma batalha eleitoral, dividindo o Estado em cores, gestos, símbolos e bandeiras, marcada pelo radicalismo insensato de paixão e ódio, que se espalhou por todo o Rio Grande do Norte. Conheceu de perto o sabor da vitória com a eleição do tio Aluízio Alves para o governo do Estado.
Em 1962, fazia seu primeiro comício nas Rocas, apoiando as candidaturas de Erivan França, a deputado estadual, e do parente Aristófanes Fernandes, a deputado federal. Este, num gesto premonitório, disse: “Anotem este nome, Garibaldi Alves Filho*. Um dia ele vai ser governador do Rio Grande do Norte”. Trinta e dois anos depois, a “profecia” se tornava realidade. Garibaldi chegava ao poder em 1994 e seria reeleito em 1998, fato ocorrido pela primeira vez no RN.
Política
Garibaldi Filho começou a demonstrar interesse pela política nos bancos escolares do Colégio Santo Antônio (Marista), onde foi orador e presidente do diretório estudantil, embora já trouxesse do berço o gosto pela militância partidária de seus ancestrais em Angicos. Participava do programa “Falando Francamente”, ao lado do deputado Erivan França, na rádio Cabugi, campeão de audiência no horário do meio dia. Garibaldi fazia seu batismo no rádio que, naquela época, tinha aceitação fantástica antes do advento da TV no Rio Grande do Norte.
Participou ativamente da campanha de 1965, que levou monsenhor Walfredo Gurgel ao governo do Estado e Agnelo Alves à prefeitura de Natal. Em 1966, assumia a chefia da casa civil e iniciava sua vida pública ao lado do tio Agnelo, com quem tem grande afinidade. Em 1969, com a cassação de Aluízio e do pai Garibaldi Alves, iniciou prematuramente a disputa por cargo eletivo, tendo sido eleito o deputado estadual mais votado do Estado, em 1970. O primo Henrique, com votação semelhante, chegava à Câmara Federal.
Substituição
Agora os filhos substituíam os pais. A luta continuava em mãos mais jovens sacrificadas pelo arbítrio, numa legenda de oposição ao regime militar, o Movimento Democrático Brasileiro – MDB, que mais tarde seria transformado no PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). O partido, antes pequeno e sem perspectivas, ganhava densidade eleitoral no Rio Grande do Norte, com novos filiados.
Garibaldi permaneceu na Assembléia Legislativa durante quase 16 anos (1970 a 1985), quando disputou e conquistou pelo voto a prefeitura de Natal. Sua eleição marcava o encerramento do período de doze anos de prefeitos nomeados por governadores indiretos. Sua candidatura foi uma escolha natural pela penetração no eleitorado da capital, que sempre lhe deu votações consagradoras.
Como prefeito fez gestão voltada para o social. Foi quem introduziu a campanha do leite para as famílias carentes, inicialmente com o apoio da Igreja, nas paróquias dos diversos bairros da cidade. Lutou pela permanência da Colônia dos Pescadores no seu “habitat”, apesar da insistência da Petrobras em desalojá-la. Cada pescador ganhou casa própria.
Enfrentou o problema das lagoas de estabilização, reguladoras das enchentes da cidade em tempo de chuva. Asfaltou avenidas, abrindo novos corredores e opções de tráfego, além de esgoto em condomínios de bairros carentes da cidade. Duplicou a avenida “João Medeiros Filho”, que dá acesso à Redinha e a outras praias da Zona Norte.
Prefeito
Sua atuação como prefeito o credenciou para disputar a senatória em 1990, com o apoio inusitado de uma dissidência do grupo Maia, formado na época pelo casal Lavoisier e Vilma Maia. Para concretizar a aliança fez-se apenas uma exigência: que o candidato do grupo Alves fosse Garibaldi Filho.
Apesar de ter feito uma oposição sistemática aos Maia no poder, ele sempre teve fama de um opositor ameno, sem a carapuça do radicalismo. Seus próprios adversários propagavam: “Garibaldi é o melhor dos Alves.” Ele faturou esse “slogan” em vitoriosa carreira política.
Destacou-se no Senado e deu o passo decisivo para disputar o governo do Estado em 1994. Ganhou a eleição ainda no primeiro turno.
A fama de bom-de-urna se espalhou por todo o RN. Novamente fez um governo voltado para o social, levando o programa do leite a todos os municípios, além da construção de escolas, hospitais, creches e outras obras inacabadas de governos anteriores. Porém a marca registrada do seu governo é o programa de adutoras em quase todas as regiões do Estado. Implantou ainda a “Central do Cidadão”, simplificando a vida dos usuários, fornecendo-lhes documentos em tempo hábil em vários bairros de Natal e nas principais cidades do interior do Estado. Construiu um viaduto sobre a BR 101 na entrada da cidade, um marco da sua gestão na capital, denominado “Complexo Viário IV Centenário”.
Polêmica
O projeto mais polêmico do seu governo foi a venda em leilão da Companhia Energética do Rio Grande do Norte – COSERN, adquirida pelo grupo espanhol Iberdrola, em 1997, no valor de R$ 552 milhões, de acordo com a versão oficial, e de mais de R$ 700 milhões, segundo a oposição, incluindo-se, aí, o resultado das aplicações do dinheiro na rede bancária. Garibaldi se reelegeu em 1998 no primeiro turno, e os oposicionistas atribuíram o fato ao uso dos recursos da privatização em obras conveniadas com prefeituras municipais.
Foi criada uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a aplicação do dinheiro. Para os deputados situacionistas, os recursos obtidos com a venda da COSERN foram usados em obras de “infra-estrutura visando ao próximo milênio, tais como o Pólo Gás-Sal e o Centro Industrial Avançado, que mudarão a face sócio-econômica do RN.”
Embora não tenham sido apurados fatos concretos que comprometessem a honorabilidade do governador Garibaldi Filho, em programa político do seu partido, o PMDB, afirmou que “o dinheiro foi aplicado em programas indispensáveis ao desenvolvimento do Estado, reconhecendo todavia que, em alguns convênios com prefeituras, houve irregularidades, as quais seriam apuradas pelo governo, principalmente o programa de construção de casas populares, sem prejuízo para os seus moradores”. A CPI, por maioria, concluiu “pela improcedência das denúncias,” e o Tribunal de Contas do Estado, mesmo com ressalvas, aprovou, por unanimidade, as contas relativas aos recursos da COSERN.
Na parte cultural, transformou o palácio Potengi em “Palácio da Cultura”, que fomenta os eventos culturais da cidade, como mais uma opção para exposições de artes, além de incentivar a publicação de obras de autores norte-rio-grandenses, através da gráfica oficial, atendendo também às entidades culturais e históricas do Rio Grande do Norte.
Adutoras
Mas o programa emblemático do governo é o de construção das sete adutoras**, executado com dotações oriundas de emendas coletivas que, por proposição do deputado Iberê Ferreira de Souza, foram incluídas no orçamento da União pela bancada federal. A primeira licitação foi realizada no governo José Agripino; o primeiro contrato foi assinado na gestão Vivaldo Costa. Coube à administração Garibaldi Filho implantar e consolidar a execução do programa.
A idéia das emendas coletivas foi um “sinal dos tempos” e do amadurecimento da classe política do Rio Grande do Norte. Ao chegarem ao gabinete presidencial, todos unidos em prol do Estado, o presidente Fernando Henrique Cardoso, estupefato, não se conteve: “Maia e Alves juntos? Que milagre é este?”
Depois de conhecer os objetivos comuns, o presidente disse a todos os presentes: “Vocês estão dando um exemplo ao País”. Estava sacramentado o programa de adutoras que se tornou carro-chefe do governo Garibaldi Filho, a ponto de seus correligionários o cognominarem de “O governador das águas”.
Nos seus quase 30 anos de mandatos eletivos, já foi deputado estadual quatro vezes, prefeito de Natal, senador da República e governador do Estado em 1994, reeleito em 1998. Não é um líder do tipo que dá murro na mesa falando alto para intimidar os interlocutores. Pelo contrário, fala manso, pausadamente, passando a impressão de que é um ser humano à prova de irritabilidade. E, dessa maneira, entrou para a história do Rio Grande do Norte. Sem grito e sem barulho, firmou uma liderança alicerçada na simplicidade de um cidadão comum.
Vice-governador em ambos os mandatos: empresário Fernando Antônio da Câmara Freire.
Das sete adutoras programadas, quatro já foram concluídas: Sertão/Central/Cabugi; Trairi/Agreste/Potengi (Monsenhor Expedito); Jardim do Seridó e Assu/Mossoró (Jerônimo Rosado). Estão em fase de conclusão as três restantes: Médio Oeste (Arnóbio Abreu); Serra de Santana (Aristófanes Fernandes) e Piranhas/Caicó. Todas as adutoras concluídas, numa extensão de 1.200 quilômetros de tubulações, beneficiarão cerca de um milhão de pessoas.
Com informações: imagens e trechos do livro: Perfil da República no Rio Grande do Norte: 1889-2003, de João Batista Machado.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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