Onde está o edifício da Prefeitura Municipal imprimia-se o jornal de João Carlos Vanderlei. Dizia-se “Travessa do CORREIO DE NATAL”.
Em 13 de fevereiro de 1888 passou a chamar-se “Rua Ulisses Caldas”. Os nomes das ruas emigraram também. Frei Miguelinho viajou da Cidade para a Ribeira, Correia Teles, que morreu general, da Ribeira para Cidade. Ulisses Caldas ficou firme, popularizado depressa nas vozes coletivas.
A justiça da homenagem se fundamentou nessa vulgarização imediata. Ainda há quem diga “RUA NOVA” em vez de “Avenida Rio Branco”, “Rua das Lojas”, em lugar de “Rua do Doutor Barata”. Com Ulisses Caldas não há esquecimento nem permuta. A rua é dele. Todos lhe reconhecem o direito a esse título.
Ulisses Olegário Lins Caldas, nascido no Assu a 5 de maio de 1846, era filho do alferes Francisco Justiniano Lins Caldas e de D. Maria Corgonha de Holanda Vanderlei, menino robusto e ágil, de olhos vivos como curisco, de cabeleira negra que se completou, já rapaz, no esboço atrevido de buço, ameaçando os ares.
Rompera a guerra contra Francisco Solano Lopez, o ditador do Paraguai. Ulisses apresentou-se, quase imediatamente, como Voluntário da Pátria. Seu irmão, João Perceval Lins Caldas, alistou-se também.
Perderam-no de vista no turbilhão. Ulisses atirou-se às refregas acesas, criando renome, citado, apresentado aos comandantes como exemplo de coragem, de tenacidade, de sangue frio perfeito.
João da Fonseca Varela, veterano do Paraguai, contava-me que, uma tarde, no acampamento, uma explosão brusca abalou as barracas. Ulisses, mais próximo do local, foi atirado, como uma bóia, projetando-se por cima do parapeito da trincheira. Lesto, sacudindo a poeira que lhe cobria a farda, retomou, calmamente, o canto que tricheria. Lesto, sacudindo a poeira que lhe cobria a farda, retomou, calmamente, o canto que ocupava, explicando, impassível: não foi nada! Um pequeno passeio de balão!
Num combate, carregando a baioneta, rebentou, no meio da tropa, uma mina. Areia, fogo, pedra, estilhaços, voaram semeando a morte, escurecendo o ambiente que se tornou trágico, na irreprimível onda de pavor. De espada em punho, negro de pólvora, desvairado, Ulisses Caldas passou, como um relâmpago, para a vanguarda do seu pelotão, gritando: avança, Camaradas! Ainda é vivo misses!
E todo batalhão, em acelerado, faiscando de entusiasmo, seguiu o jovem alferes de vinte anos, vivando o Brasil.
Batendo-se corpo a corpo, derribando os adversários à queima-roupa, tomou dois canhões. O Imperador D. Pedro II mandou pregar-lhe no “dolman” esfarrapado a Imperial Ordem do Cruzeiro.
Na tomada do Curuzu, dirigida pelo general barão de Porto Alegre, que comandava a batalha enluvada de branco, fardão de grande gala, com todas as condecorações, Ulisses conseguiu sobrepujar suas antigas façanhas. Caiu, ao certo, de feridas, vestido de sangue, sem um gemido. Fora o primeiro a galgar o baluarte inimigo.
A “Ordem do Dia do Exército”, de 4 de setembro de 1866, narrando a vitória do dia anterior, fala no oficial, cuja intrépidez surpreendera aquela imensa família de bravos. Era Ulisses Caldas. Faleceu a 7 de novembro de 1866.
Sua “Fé de ofício” brilha nas citações incontáveis de heroísmos que eram temeridades felizes. Certo de morrer menino, Ulisses vivera em perigo, em força impetuosa, em valentia indômita, seus dias breves.
Todos os oficiais dos batalhões 29, 36, 47, 11, 41 e 49, acompanharam, descobertos, seu caixão que quatro comandantes carregavam, os tenentes-coronéis Maia Bitencourt, do 27, Amorim Rangel, do 49, Antonio Augusto, do 36, Paranhos, do 6.
Um seu conterrâneo, ausente também, Dr. Luiz Carlos Lins Vanderlei, tivera razão em findar desta forma os versos que lhe dedicou, em 1867: porém depois da vitória, morreu. Que resta! Uma cruz! Uma página na história, escrita com muita glória, cercado de muita luz!
Vinte e dois anos depois de sua morte, deram seu nome à rua em Natal. Um pequeno nome, sonoro e claro, soando harmoniosamente. Nome de um bravo!
A República, 17 de maio de 1942.
Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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