O Padre João Manuel

Ana Tersuliano
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06/08/2025 às
08:07

O Padre João Manuel de Carvalho nasceu em Natal a 26 de dezembro de 1841 e faleceu no Rio de Janeiro em 30 de maio de 1899. Filho do Capitão João Manuel de Carvalho e de D. Quitéria de Moura Carvalho, ordenou-se em 1865 no seminário do Maranhão. Foi vigário da Igreja da Candelária durante sua estada no Rio e paroquiou Amparo, em São Paulo, onde fixara sua residência, logo depois do movimento de 15 de novembro de 1889.
Ainda seminarista, fundou em Natal “O Recreio”, a primeira publicação de molde literário que a província conheceu. Colaborou e fundou jornais em Natal e no Rio. Escreveu nos principais órgãos conservadores do Império.
Deputado provincial nos biênios de 1867-68, 70-71, 76-77. Diretor da Instrução Pública em 1868.
Filiou-se ao Partido Conservador, na ficção Bonifácio Câmara. Começou escrevendo no “Conservador” e acompanhava fielmente a manobra da partidária. Depressa distinguido, entre os amigos graduados, o faro do velho Bonifácio, espécie provinciana do Conde de São Lourenço, pondo asas nas costas de quem julgava capaz de vôo e recusando posto de realce para si mesmo.
Bonifácio dominava quase soberanamente o cenário. Hábil, respeitava a força ainda respeitável dos “Cabrais”, inamolgáveis e ardentes que a política do Marquês do Paraná dera foros de previdentes prestigiados. Unidas mas não ligadas, as duas greis caminhavam paralelas, dando auxílio mútuo mas sem reconhecer a validade duma ordem que não partisse do chefe particular de cada ala.
O Padre João Manuel agradou depressa.
“Sua popularidade intensa era devida ao mesmo nível entre ele e seus eleitores. O Padre João Manuel possuía todos os vícios e virtudes nordestinas. O desinteresse, a generosidade, a coragem, a loucura patriótica, o arrojo, a honestidade pessoal, a inteligência viva, clara, duma extrema plasticidade, reluzente e silvante como um florete, eram-lhe características. Também a combatividade quase grosseira, o descaso pelas circunstâncias que pediram outra linguagem, o emprego do vocabulário chulo, delicioso de picotose e colorido mas descabido, a sem-cerimônia com que aproveita um sermão de Semana Santa para dizer desaforos aos adversários, a manha das perífrases, das imagens grandiloquas, a clava de lama, as lufadas impetuosas do vento da liberdade, os rafeiros áulicos, a marcha triunfal da idéia vencedora, que se prestava a citações inflamadas em discursos e “meetings”, tornavam-no admirado pelo povo. Seu estilo era ser em nível de voz em alta. Meio gritante, áspero, com uma vivacidade a um tempo gracioso e leve, fazia furor.
Alguns artigos seus, como “As Duas Coroas” em que terminava afirmando que a sua ficaria segura sobre a cabeça e a do imperador voaria pelos ares, deram-lhe foros de celebridade.
Poucos anos depois de jurar, o Padre João Manuel criou, pela independência e atividade inconsciente de seu espírito, um lugar à parte no estado-maior do coronel Bonifácio. Sua atuação política era trepidante demais para ser cauta e segura. Por isto, apesar do seu renome de tribuno e das facilidades de jornalista, o velho chefe preferia Gomes da Silva, seu sobrinho, formado em Paris e homem calmo, controlado e mais culto que o superficial e tintinabulante João Manuel.
Ele e Gomes da Silva foram os autores do oferecimento da cadeira senatorial, vaga com a morte de Dom Manuel de Assis Mascarenhas, ao Conselheiro Francisco de Sales Torres Homem, Diretor do Banco do Brasil, expoente conservador da época.
O trabalho eleitoral de João Manuel e de Gomes da Silva de janeiro a novembro de 1869 foi apenas formidável. Em janeiro afrontavam o partido liberal administrando com Zacarias de Gois e Vasconcelos. Em novembro a luta fora menor. Itaborahy governava…
O oferecimento fora em 1867 e João Manuel contava na certa com a deputação-geral. Bonifácio dirigira a campanha sem grandes entusiasmos porque via a intromissão incabida dum elemento alienígena na política local. Torres Homem nunca lhe mereceu simpatias decisivas.
A candidatura do futuro Visconde de Inhomerim surgiu como fogo-de-barragem ao nome de Amaro Bezerra, chefe liberal relacionado e influente, candidato à senatoria sob Zacarias Vitória fácil. João Manuel e Gomes da Silva arriscaram, genialmente, numa sucessão de província pequena, a sorte de todo partido conservador.
Para a décima quarta legislatura, Gomes da Silva foi eleito mas seu companheiro de chapa era o Dr. Otaviano Cabral Raposo da Câmara, o guia dos Cabrais, a falange mais extremada do partido. João Manuel, depois de velho, confidenciara a raiva da preterição sofrida. Gomes merecia mas Otaviano, que nada fizera, ficara inútil, e para não perder a oportunidade, o padre citava as delícias de Capua.
Na décima-quinta legislatura, 1873-76, os conservadores bateram chapa completa e João Manuel foi eleito. O Dr. Tarquínio de Souza figurou na chapa vitoriosa.
Mesmo assim não era do gosto dos sub-chefes locais a ida do Padre João Manuel para a deputação-geral. O candidato querido era um médico, o Dr. Henrique Leopoldo Soares da Câmara, orador famoso e outro sobrinho de Bonifácio. Henrique Câmara tinha superioridade da educação política, da cultura disciplinada e da técnica em matéria partidária. João Manuel, em visita a Bonifácio sem ser ali assunto, impôs-se. Henrique ficaria para depois…
Quando Bonifácio morreu (1884), o partido conservador na província ficou dividido. O grupo do Dr. Tarquínio de Souza e o grupo de Padre João Manuel. O primeiro reunia seus dirigentes numa palestra íntima na farmácia de José Gervásio de Amorim Garcia e era chamado “o grupo da Botica”. Os amigos do padre escolheram a praça da alegria (hoje Padre João Maria) onde grandes gameleiras sombreavam. Era o “grupo da gameleira”. Botica e gameleira disputaram eleições e fizeram fatos até a República.
O prestígio político do Padre João Manuel vinha sendo abalado no interior da província. Anunciava-se que o segundo-distrito não votaria com ele. Diversos chefes do sertão escolheram candidatos e preparavam uma conversão para tratar do tema à revelia do grupo da gameleira.
Reelegeu-se para a 22ª legislatura geral (1886-89) apesar do panfleto injurioso que contra ele escrevera José Leão Ferreira Souto.
Na seção de 11 de junho de 1889, João Manuel viveu a República. A réplica fulminante do Visconde de Ouro Preto não diminuiu o valor da prioridade.
Desligado do partido (João Manuel avisara João Alfredo que ia aderir à República e o Barão de Lucena, Presidente da Câmara, estava informado igualmente), João Manuel não procurou aproximação com o Partido Republicano que Pedro Velho formara em Natal em 27 de janeiro de 1889. Seria o caso raro de dois soberanos no mesmo trono e com iguais poderes executivos. O receio de Pedro Velho e o orgulho de João Manuel afastaram a colaboração ilustre.

Com o advento republicano, João Manuel, ainda forte e vibrante, ficou condenado ao ostracismo. Fez uma exposição convulsiva a Floriano Peixoto de quem dizia que trairia a própria mãe por ter nascido antes de tempo.
Escreveu palinódias melancólicas sobre a paixão política. Um caso sereno daquele dia rutilante.
Orador abundante não era cuidado nem elegante. Respondia bem mas quase sempre confundia o insulto com a veemência. Propôs algumas medidas oportunas para o Rio Grande do Norte, estas corretas, etc. Essencialmente político, preocupava-se com as reviravoltas do partido e muito mais tempo tomava o destino de um eleitor que o da própria província.
Sempre que lhe era possível satisfazer pedidos de correligionários. A terra, pequenina e pobre, teve muito pouco na distribuição de sua amizade…
Um ou dois dias depois da proclamação da República, o Padre João Manuel, radiante, assistiu a uma festa popular. Foi à secular. “Frack”, cartola, “plastron”. De volta, despedindo-se, notou a falta do camafeu que ornara a gravata. Procurou-o debalde. E teve uma frase ciciada e lenta: querem ver que a República começou furtando?…

A República, 15 de dezembro de 1938.

Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra

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Comentários

Uma resposta

  1. Muito bom meu amigo Cobra, você vem se destacando como um dos melhores historiadores do nosso Estado, esse resgate da nossa História e da nossa cultura é essencial para entendermos de onde viemos e para onde vamos. Parabéns !!!!

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