O acompanhamento de modinha não é o solo de “fox-trot” a saxofone. Tem um estilo, isto é, uma maneira, um processo conhecido e que não deve ser alterado. É tão respeitável quanto um coral. Fazer uma “Jazz-band” acompanhar uma modinha é o mesmo que obrigar os vinte e cinco bombos de um maracatu executarem um moteto de João Sebastião Bach. Cada instrumento no seu galho. Não há execução nem habilidade capaz de justificar a presença de certos instrumentos em certas peças de canto.
Pode-se fazer por mero espírito de revolução, de ousadia, para desbastar o burguês. Também é possível sair alguém com os cabelos pintados de verde, como fez Baudelaire, ou puxando uma lagosta pelas ruas, como fez Barbey d’ Aurevilly. Não há proibição em leis. Há, apenas, no bom gosto.
Compreende-se que a modinha, canção romântica do século XVIII e que fez-se vitoriosa no século XIX, pertencia aos salões e é produção mental superior, literalizada, feita por poeta sabedor de ritmos e seguro nas rimas certas. Passou a modinha às ruas pela serenata.
Na primeira fase, é música de salão, de piano, instrumentos de corda, como violino e um de sopro, a flauta. Os acompanhantes à viola foram primeiramente aplaudidos. O violão chegou depois. A viola perdeu a coroa, indo para o povo, e aí se tornou privativa das cantigas e danças tradicionais. O violão ficou, com o violino, o piano e a flauta, pertencendo ao séquito da modinha. São esses os instrumentos modinheiros. O que existir, além desses enunciado, é exótico ou raridade.
O instrumento para a modinha aristocrática, sua forma inicial foi o piano. O violão superou o piano quando da popularização da modinha. Sabe-se que a tradição mais valiosa dos nossos modinheiros; dedicada ao violão e o violão fez possível o acompanhamento mais langue, mais demorado, mais sexual e brasileiro. Daí a escolha de Waldemar de Almeida fixar o violão como fornecedor do estilo acompanhador, registrando na série que o ocupa, patrioticamente, nesses meses.
O violão chegou mesmo a determinar a maneira do acompanhamento. Certas modinhas só serão dignas de audição e aplauso ao violão ou no estilo violonístico. A que debalde varrer-te da memória. Por exemplo, possuía acompanhamento especial, feito por Pedro Velho e que meu pai conservava, porque era bom tocador de violão. Qualquer instrumento de sopro, fora a sonhadora flauta, é um macaco na loja de louças. Quebra totalmente o efeito, cismarento e doce, da modinha bonita.
A dificuldade máxima de Waldemar de Almeida reside em manter no piano, sob a exigência da escrituristicia musical, aquele infixável e irreal acento romântico que halo a as nossas modinhas e que se revelou notável no violão. O registro, nos limites da pauta, quando o acompanhamento violonístico tem licença de variar os modos, expôs Waldemar ao imperativo de escolher deliberadamente, uma forma definitiva e conservá-la para futuro, como a melhor, aos seus ouvidos artísticos.
Quando, publicado o álbum, for possível tocar e cantar as velhas modinhas ressuscitando os perdidos acentos que os violões, tangidos por dedos que já se desfizeram, enchiam de sonho e de lembrança, tenha-se presente o que de impossível foi vencido, o que de imponderável foi registrado, o que de fluido e vago pôde ser materializado no pentagrama. Recorde, o feliz executante futuro, que a moeda legítima que paga o esforço criador paciente do fixador das modinhas, é a compreensão do seu trabalho.
Não se tome por mera curiosidade, passa tempo de professor de piano, divertimento de compositor, tantas horas doadas a uma tarefa que parece singela porque é musical. Não julguem que a simplicidade das modinhas é equivalente à sua grafação.
Waldemar de Almeida sabe que as coisas mais diabolicamente difíceis são as mais aparentemente fáceis, claras e convidativas…
À República, 18 de abril de 1940.
Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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