Há, no vale do Ceará-Mirim, um canal Dodt. Fora terminado em fevereiro de 1867. Construído em linha reta, com 4.668 metros de comprimento, cinco de largura e um de profundidade, recebe o rio d’água azul, canalizado numa extensão de 1.300 metros e finalmente o canal sangradouro, rasgado através dos mangues, abaixo do lugar Ponte, com 1.830 metros.
Todos somam 8.900 metros. Gastou-se a quantia de 7.720$000, mas só custou ao governo 4.059$200. O restante foi produto de uma subscrição entre os proprietários de Ceará-Mirim promovida pelo Sr. Vicente Ferreira Gomes, juiz de direito de Natal. Chamam-no Canal Dodt porque foi feito pelo engenheiro Gustavo Luiz Guilherme Dodt.
Dodt nascera em Dannerberg, no reino de Hanover, a 14 de março de 1831. Doutor em filosofia pela Universidade de Lena, aceitou o convite que o dr. Guilherme Schuch de Capanema (depois Barão de Capanema), fazia aos jovens técnicos alemães para que viessem trabalhar no Brasil. Mais ou menos em 1853 estava no Rio de Janeiro onde, em 1859, casava com uma patrícia, Elisa Cristina Von Mohlenbrock, tendo apenas duas filhas: Emy, que ficou solteira e Ana Guilhermina que se casou com Antônio Felino Barroso, cearense, pai do escritor Gustavo Barroso, único descendente varão do Dr. Dodt.
Logo depois de beber água carioca, o Dr. Dodt naturalizou-se brasileiro. Nunca mais voltaria a ver sua pátria alemã. Ficou para amar a terra brasileira, servindo-a com inteligência e carinho, até morrer.
Iniciou sua tarefa em Juiz de Fora. Depois foi mandado, como funcionário do Ministério das Obras Públicas, para o Rio Grande do Norte. Aqui fez seus trabalhos que lhe deram renome, recomendação e fama para outras comissões e aproveitamentos.
Levantou uma planta da Fortaleza dos Santos Reis Magos, vista e secção com detalhes dos edifícios e baterias, em três folhas, com as dimensões de 0m,395 por 0m,370, datando de 15 de setembro de 1866. Sacramento Blake informa existirem plantas das cidades norte-rio-grandenses do Assu e de Mossoró, ambas em janeiro de 1888.
Em novembro de 1865, os deputados provinciais Bartolomeu Leopoldino Dantas e Hermógenes Joaquim Barbosa de Moura apresentavam um projeto interessante na Assembléia Legislativa Provincial. Ficava concedido ao Dr. Dodt o privilégio de desaporpriar os terrenos incultos e pantanosos depois dos engenhos Torre, Ilha-Bela e Bica, no vale do Ceará-Mirim, compreendendo mesmo o lugar chamado Estiva do Flamengo. O Dr. Dodt sonhava, com um sistema de canais, descer o pântano, no sistema dos polders holandeses, aproveitando região inteiramente abandonada. Ainda havia o plano de uma estrada ampla, ligando Natal ao Ceará-Mirim e um grande engenho, tipo moderno, para fabricação de açúcar.
Deve ter surgido da miragem quando o Dr. Dodt estudava o vale que cortaria com o canal.
Fez vários reparos na fortaleza, examinando a curiosidade da cacimba dos Santos Reis, dentro da capelinha do Forte, com água doce.
Dizia uma tradição que a cacimba secaria se os três Reis saíssem do seu nicho. Foram retirados em 1901. A cacimba secou.
O Dr. Dodt ainda trabalhou no Beco-Novo, hoje Voluntários da Pátria, levando-o até proximidades do Baldo. Em abril de 1867 o Presidente da Província, Luiz Barbosa da Silva, anunciava em seu relatório, que o governo imperial acaba de remover daqui para o Piauí o engenheiro Luiz Guilherme Dodt, que nesta Província se achava em comissão do Ministério das Obras Públicas. Em Piauí, o Dr. Dodt estudou o Parnaíba. Em Maranhão o Gurupi, escrevendo relatórios magníficos que constituem o volume 138 da Brasiliana (São Paulo, 1939). Em 1877, o Barão de Capanema mandou-o traçar e construir o Telégrafo Terrestre, desde Paraíba com lutas e canseiras, viajando nos jumentos teimosos, ao sol e chuva, mas realizando totalmente a missão, sendo
o primeiro Chefe do Distrito Telegráfico do Norte, do Rio Grande do Norte ao Pará. Aposentou-se em 1895. Era honestíssimo. Fixou-se em Blumenau, Santa Catarina, onde faleceu a 10 de março de 1904. Deixou histórias vivas. Gostava de cachaça com água de coco, atirava maravilhosamente e tomava as dores de todos os seus empregados. O fio do telégrafo não passou pela cidade do Assu porque prenderam um seu locador. Zangou-se e fez volta. Voltou das Quintas, indo para Macaíba, porque se esquecera de pagar quinhentos réis. Quando morreu deixou o montepio de 211$000, metade do seu ordenado fixo, uma casa velha em Blumenau e um grosso anel que o neto usou. Mas o nome ficou limpo de mancha e claro para todas admirações justas ante sua existência de esforço e de tenacidade.
A República, 28 de dezembro de 1939.
Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
Pesquisa e Edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente –e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra
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Respostas de 2
Valeu amigo Ricardo cobra ! Parabéns!! Grande historiador.
Meus ancestrais eram indígenas no vale do Ceará Mirim e a história das ferrovias atravessam nossa biografia. Katu: águas boas