(31/01/1956 – 31/01/1961)
Dinarte Mariz* governou o Rio Grande do Norte com o coração acima da cabeça. Era um homem múltiplo. Com gestos de grandeza e atitudes de coragem. A omissão não fazia parte de seu cotidiano. Não levava desaforos para casa. Dizia o que queria na hora certa. Tinha como marca registrada a hospitalidade e a generosidade seridoenses. Seu governo deu ênfase à educação. Criou a Universidade do Rio Grande do Norte, posteriormente federalizada, além dos Institutos de Educação de Caicó e de Mossoró, hoje denominados Centro Educacional “José Augusto” e Centro Educacional “Jerônimo Rosado”, respectivamente.
Estatura mediana, olhos azuis e cabelos brancos, que lhe davam um charme especial, Dinarte Mariz sabia fazer a hora, como dizia Geraldo Vandré. Era, antes de tudo, um animal político. Acordava, vivia e dormia política. Era o seu prato predileto. Juscelino Kubitschek dizia que Deus o poupou do sentimento do medo, dádiva, também concedida ao senador Dinarte Mariz.
“Eu tomo partido em tudo. Até em briga de galo”, disse-me, certa vez, almoçando na “Peixada da Comadre”, nos idos de 1970.
“Não sei quem será o governador do Rio Grande do Norte. Sei quem não será”, afirmou numa entrevista ao “Diário de Natal” em 1970, quando se falava nas eleições indiretas para o governo do Estado, numa alusão ao seu desafeto pessoal, Aluízio Alves, que era o candidato da “Cruzada de Esperança”, imbatível em pleito direto, na época.
Poder
“Do Rio Grande do Norte, eu sei até a data do nascimento das crianças.”
Ele queria dizer com isso que sabia de tudo. E como sabia. No Congresso Nacional era abordado por todos. Os jornalistas, embora discordassem de suas posições políticas, gostavam muito dele. Era uma fonte inesgotável de notícias.
Os repórteres faziam plantão durante uma semana em busca de notícia, no gabinete do senador Petrônio Portela, que não os recebia. Eles pediram a interferência de Dinarte. Ele conseguiu. Depois de atender a imprensa, Petrônio vira-se e lhe pergunta:
Dinarte, no Rio Grande do Norte, também é inconveniente assim?
Petrônio, eu trouxe os meninos porque sabia da sua competência. Você falou muito e não disse nada!
Os dois caíram na risada. Foi assim que conheci o elegante Petrônio Portela, que teria sido presidente da República se o coração não o tivesse atrapalhado no meio do caminho.
Certa vez, almoçando com Dinarte na “Carne de Sol do Lira”, perguntei-lhe por que ele não fazia as pazes com Aluízio Alves, seu ex-companheiro da UDN, a quem, até o rompimento em 1960, tratava como se fosse um filho.
Se fosse mais moço, eu até poderia fazer as pazes com ele. Mas, com a idade que tenho, se perder a vergonha agora, eu não a acho mais.
A coragem era uma marca registrada da sua personalidade. Quando da escolha do candidato da ARENA ao Senado, o presidente Castelo Branco, ao recebê-lo no palácio do Planalto, disse-lhe:
Senador, no Rio Grande do Norte, segundo pesquisa que tenho em mãos, quem tem votos é o doutor Aluízio Alves.
Dinarte mexe-se na cadeira e interrompe o presidente, afirmando categórico:
Se fosse por ter voto, presidente, quem deveria estar sentado aí nessa cadeira não era o senhor. Era o doutor Juscelino, que tem voto, e o senhor, não.
Nesse diálogo irônico, Dinarte Mariz vetou o nome de Aluízio para ser candidato ao Senado pela ARENA.
Amigo
Tive o privilégio de conviver com ele por alguns anos. Eu era o repórter preferido para as suas declarações políticas. Fiz com ele uma grande amizade nessa convivência. Um deputado estadual disse a Dinarte que ele deveria parar de gastar dinheiro com determinado candidato, porque este estava derrotado. O velho senador balança a rede, com o indicador calcando o chão, e diz:
Se você me conhecesse melhor, não me faria essa proposta. Eu nunca deixei um amigo meu no meio do caminho.
Seu candidato terminou ganhando a eleição inesperada.
Assim era Dinarte Mariz, capaz de ajudar a um amigo, mesmo sabendo por antecipação que estava derrotado. Dele recebi lições sobre política do Rio Grande do Norte, de generosidade e grandeza.
Reencontrou-se e perdoou o velho inimigo Aluízio Alves para a reconciliação, já no final de seus dias, num leito hospitalar em Brasília. Resumiu o encontro com uma frase: “Quero morrer em paz com Deus e com os homens”.
Dinarte de Medeiros Mariz começou sua vida pública como prefeito de Caicó, na revolução de 1930, que teve seu apoio integral no Estado. Exerceu o mandato de senador por cinco vezes, tendo sido a última por escolha indireta do presidente da República. Por mais de uma vez, foi 1º secretário do Senado, um dos cargos mais importantes daquela Casa legislativa.
Bem informado
Durante a vigência do regime militar, foi o político mais influente do Rio Grande do Norte e um dos homens mais bem informados do País. Foi quem comunicou ao ministro Jarbas Passarinho, em primeira mão, a gravidade da doença do presidente Costa e Silva, de quem era amigo pessoal. E que viria a falecer pouco tempo depois. No governo
dele, o senador era o donatário do Rio Grande do Norte. Nada se fazia aqui sem sua concordância.
Dinarte Mariz era intuitivo, dotado de uma privilegiada capacidade para decidir, comandar e liderar. Seus gestos eram tão largos quanto a capacidade de amar e perdoar. Morreu em paz com Deus e com os homens, sem nunca ter cometido um ato de deslealdade contra o próximo. Dinarte Mariz nasceu em Serra Negra, em 23/08/1903, e faleceu em Brasília, no dia 09/07/1984.
Vice-governador: José Augusto Varela, que havia governado o Estado no período de 1947 a 1951.
Perfil da República no Rio Grande do Norte (1889-2003)
Com informações, imagens e trechos do livro: Perfil da República no Rio Grande do Norte: 1889-2003, de João Batista Machado.
Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.
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