José Augusto Varela

Ana Tersuliano
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11/07/2025 às
09:27

(31/07/1947 – 31/01/1951)

O governador José Varela* administrou o Rio Grande do Norte como se cuidasse dos recursos de sua própria casa. Na sua gestão, ninguém ousava esbanjar dinheiro ou gastar mais do que o necessário. Seus adversários e até alguns amigos não toleravam o seu zelo excessivo com o dinheiro público. Mas ele se manteve assim até o último dia do seu mandato. Quando nem se falava em austeridade, ele já dava o exemplo de como lidar com o dinheiro público sem esbanjamento e gastos desnecessários.

Nestes tempos de denúncias, corrupção, escândalo e superfaturamento, quando o Poder Público está na berlinda, e a opinião pública, de olho nas compras e gastos do governo, é bom lembrar, até para servir de exemplo às novas gerações, o nome do ex-governador Zé Varela**, eleito após a redemocratização do País, em 1946. Seu governo foi marcado pela austeridade, honestidade e zelo no trato do dinheiro público.

Austeridade
Estatura mediana, cabelos grisalhos, bem penteados para trás, óculos “ray-ban” escuros, com seu temperamento controlado pela ioga, foi assim que eu conheci José Varela, no repouso da sua casa no Tirol, ao lado de D. Conceição, sua mulher, falando sobre o passado e o seu governo, que foi um dos mais severos da história política do Rio Grande do Norte.

Carneiro assado

Quando era governador do Estado, não permitia que seus filhos usassem carro oficial. Usavam o seu particular. E nenhum deles tinha coragem de desobedecer à ordem do velho José Varela. Mordomia, nem falar. Em sua casa, as refeições eram de uma família comum de classe média. Sem nenhuma ostentação. Homem simples, gostava da comida caseira do sertão.

Durante seu governo, o presidente Eurico Gaspar Dutra foi convidado a vir ao Rio Grande do Norte. O senador Georgino Avelino, com seu gosto requintado, comprou uma caixa de vinho francês para o almoço que seria realizado no Grande Hotel. Ao ser informado do custo da caixa de vinho e do almoço, José Varela tomou uma decisão drástica:
–Ele vai almoçar na minha casa um carneiro assado, que vou trazer da minha fazenda. O Estado não pode fazer este tipo de gasto supérfluo. Ele vai comer aqui o que eu como todo dia. E o senador Georgino Avelino, que comprou o vinho, que pague a conta.
O governador contou este episódio numa longa entrevista que me concedeu para o “Diário de Natal/O Poti” e acrescentou: “O presidente Dutra achou ótimo o almoço caseiro e não se cansava de elogiar o carneiro assado que comeu. Apenas Georgino passou alguns meses sem falar comigo. Eu disse ao presidente: ‘num Estado pobre como o nosso, ninguém tem o direito de fingir que é rico. O senhor comeu hoje o que eu como todos os dias’.”

Quando terminou seu mandato, no outro dia retornou a Macau, onde, reabrindo seu consultório médico, reiniciou a vida profissional. Lá era simplesmente o Dr. Varela, o amigo de todos, que conhecia as ruas e os becos da cidade como a palma da sua mão. Era o único meio de vida que tinha para sustentar a família. No seu governo, foi iniciada a construção do moderno Quartel da Polícia Militar e implantada a Escola Agrícola de Jundiaí.

Doação

Seus amigos do velho PSD (Partido Social Democrático) de Mossoró – depois ele foi o fundador do PDC (Partido Democrata Cristão) no Rio Grande do Norte – reuniram-se sob o comando de Duarte Filho e recolheram dinheiro para comprar um carro que lhe foi dado de presente. O carro foi um “Plymouth” americano. Seis meses depois, José Varela reúne os mesmos amigos e, em dificuldades financeiras, diz o seguinte: “Não posso manter o carro que vocês me deram. Por isso, vim devolver o presente que recebi dos amigos”. O carro foi comprado pelo médico Duarte Filho.

Apesar do seu jeitão ríspido, José Varela foi deputado estadual, presidente da Assembléia Legislativa, prefeito de Natal, deputado federal à Assembléia Constituinte, em 1946, governador do Estado e vice-governador. Encerrou a vida pública como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, nomeado pelo governador Aluízio Alves. Exerceu cargos legislativos e executivos como se estivesse cumprindo uma missão. Um exemplo de homem público para as novas gerações. Um homem público que morreu com as mãos limpas. Nasceu em Touros, em 20/11/1896, e faleceu em Natal, em 14/06/1976.

  • Após a promulgação da nova Constituição do Estado, em 1947, realizou-se a eleição indireta para vice-governador, tendo sido eleito o candidato do Partido Social Democrático (PSD), desembargador Tomaz Salustino Gomes de Melo, que concorreu com o udenista Dinarte de Medeiros Mariz.

** O governador José Varela portou-se como magistrado durante a campanha eleitoral que elegeu seu sucessor, o oposicionista Dix-sept Rosado Maia.

Com informações, imagens e trechos do livro: Perfil da República no Rio Grande do Norte: 1889-2003, de João Batista Machado.

Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.

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