O Conde D’Eu em Natal

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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10/07/2025 às
13:01

O “Maranhão” apareceu no horizonte logo depois do meio-dia de 11 de agosto de 1889. A Fortaleza dos Reis Magos salvou. O navio embandeirado e espelhante, ficou ao largo. Natal inteira estava no cais da alfândega, esperando Sua Alteza o Príncipe Consorte, Gastão d’Orleans, Conde d’Eu.
Desde julho nomeara-se uma comissão para os festejos principes­cos. Compunha-se o “Comitê” dos Srs. José Moreira Brandão, presidente da As­sembléia Legislativa, Manuel de Carvalho e Souza, 1° Secretário, o Enge­nheiro Luiz Soter, Tompson Viegas, fiscal da estrada de ferro Natal-a-Nova Cruz, o industrial Juvino Cezar Paes Barreto, o comerciante José Domingos de Oliveira, o médico José Calistrato Carrilho de Vasconcelos e o professor Odilon de Amorim Garcia.
O presidente da província era Fausto Carlos Barreto e o chefe de polícia interino, Lourenço Justiniano Tavares de Holanda. Gente miúda e graúda ficou firme esperando o Marechal Conde d’Eu, olhando a guarda-de-honra, de grande-gala, os altos guiritões ornamentais ao sol tropical. O palácio do Governo na Rua Conselheiro Tarquínio (Rua Chile hoje) cheirava e brilhava como uma noiva.
Às três horas Sua Alteza pisou o barro do cais. Era alto e forte, Cortez, duro de ouvido, sorridente, saudando todos. Causou decepção ao povo não estar fardado, cintilando de medalhas, penachos e dourados. Príncipe só se entendia bem enfeitado. Impressão maior determinou o Barão de Corumbá, Almirante João Mendes Salgado, que desceu fardado, enluvado, sisudo.

Sua Alteza foi ao Palácio e logo saiu em visitas. O primeiro lugar foi a Matriz. Orou e subiu, de degrau a degrau até o eirado da torre. Lá em cima encontrou Manuel Teófilo da Costa Pinhei­ro, que morreria tenente-coronel do Exército, e, sendo republicano, escondera-se para não ver o marido da futura Imperatriz. Viu-o e deu-lhe a mão, ajudando a vencer o derradeiro obstáculo.
Sua Alteza examinou as repartições públicas, Telégrafo, Tesouraria da Província, Tesouraria da Fazenda, o Atheneu.
Cedo, seis horas, jantar. Naquele tempo adorável o jantar era às três. O banquete oficial quan­do do casamento do Conde d’Eu com D. Isabel fora às três horas.
Acenderam-se os noventa e cinco candeeiros da iluminação da Cidade do Natal. Conversas, saudações, projetos. Às nove horas a corneta tocou “recolher” e o príncipe foi dormir. Não houve teatro, música, discurso, declaração nem baile. O povo antigo tinha um juízo admirável.
Cinco horas da manhã de 12 de agosto de 1889. O Conde d’Eu e comitiva seguem, em trem especial, Piquiri onde Sua Alteza bebeu água do rio de achado bom. De volta, parada em São José de Mipibu e almoço na casa do Juiz de Direito, Jerônimo Américo Raposo da Câmara, que vinte vezes governaria o Rio Grande do Norte republicano. Chegada ao Natal. O Conde d’Eu troxe séquilho e beijos de São José.
Palestra no Palácio, visita ao edifício da alfândega. Despedidas coletivas e individuais. Abra­ços. Ida para o cais. A guarda de Honra apresenta armas. Palmas. O príncipe descoberto, sereno, tomba. Sós o erguem. O presidente levava o vivo protocolar. Adeus Alteza …
Estava lá fora outro navio, o “São Francisco”, da Companhia Pernambucana de navegação a vapor. O comandante, Joaquim José Esteves Júnior, convidou o presidente, e a comissão e autori­dades para um passeio de alguns minutos seguindo o “Maranhão”, onde o Conde d’Eu saudava.
Noventa por cento dos convidados ilustres pisava pela primeira vez num navio. Quando o “São Francisco” começou a subir e descer nas ondas verdes, nem queiram saber o que sucedeu, com toda aquela gente enjoada, enjoada, enjoada …
Finalmente o navio seguiu. Os natalenses voltaram, satisfeitos, cansados com o dia glorioso. O “Maranhão”, claro como uma fogueira flutuante, sumia-se no horizonte escuro.
A noite caiu. A cidade voltou à sua monotonia pacífica. As conversas giravam derredor do Conde d’Eu, sua glória, vida, triunfos, felicidades.
Noventa e três dias depois, de remeiro a Presidente da Província, todos davam graças a Deus de não lhe haver permitido que, na terra, fossem Sua Alteza Gastão d’Orleans, Conde d’Eu, Prín­cipe Consorte no Império do Brasil, Marechal do Exército e Grã-cruz de todas as ordens.

A República, 28 de março de 1942.

Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.

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