Durante todo mês de setembro de 1958 acompanhei, dia a dia, a demolição da alta chaminé da antiga fábrica de tecidos de Natal, fundada por Juvino Barreto.
Era um elemento característico na velha paisagem da cidade que se transformou. Ninguém notou seu desaparecimento. Nenhum jornal registrou sua morte. Não fez falta. Viveu oitenta e três meses.
À sua sombra trabalharam os oitenta operários de Juvino César Paes Barreto. A charanga ensaiava seus dobrados valses, animando-a.
Recebeu o primeiro para-raios na cidade. Vinha gente de longe para ver as pontas de aço, dedos metálicos espetando o ar, aguardando o impacto radiante.
Ao seu derredor tudo se modificou.
O escritório foi abaixo. Os dois prédios atuais, são novos, confortáveis, modernos. O machado abateu as duas palmeiras imperiais que flabelavam diante do prédio, plantadas pela mão de seu Juvino. Arrasaram a Capela de São José.
O edifício recuou, tomando forma diversa.
Todos, ou quase todos, os mestres e operários do tecido, os clientes, estavam eufóricos pela vitória.
A chaminé nasceu em 21 de junho de 1888. Inauguração da fábrica com a presença do Presidente da Província, Dr. Antônio Francisco Pereira de Carvalho. Seu Juvino, rilhando os dentes, estava eufórico pela vitória.
Era a primeira fábrica de tecidos e não tivemos ainda a segunda.
A chaminé está feita. Alçava-se, orgulhosa, na sua tonelada de tijolos vermelhos, com data em negro, visível e clara, 1888.
Nas oficinas soavam quarenta e oito teares, movimentando mil e seiscentos fusos. Fazendo tecido grosso, barato, popular.
A chaminé era o símbolo.
Não apitava porque o apito estava junto da grande caldeira mas o apito da fábrica era o relógio democrático da cidade inteira.
Apitava, longamente, às cinco da manhã e às cinco da tarde.
Chamando e despedindo as operárias.
Eu nasci justamente depois do apito das cinco horas, numa sexta-feira, na Rua da Virgem.
Os negócios de gente pobre eram regulados pelo apito, fechando o dia. Quando o tecido apitar… esteja em casa! Volte antes do apito… Tudo isto passou. Tempus fugit…
A Chaminé resistiu.
Passaram os tempos. A fábrica veio de firma em firma até que todo maquinário foi vendido para Belém do Pará.
Os armazéns despovoaram-se. O edifício silenciou. A chaminé era inútil.
A chaminé ficou vendo. Esquecida mas impávida, alta, imponente, gritando sua história de oitenta anos, sua glória industrial desde 1888.
Era um pilone marcando a passagem do gigante Juvino Barreto. Deixara aquele vestígio como um faraó plantava um monólito, anunciando que vivera e fora grande no mundo.
Mas em setembro de 1958 a chaminé foi derrubada, devagar, desmanchando-se, sumindo-se do panorama da cidade o seu perfil vertical, índice de um passado defunto.
Não tinha mais utilidade a velha chaminé de oitenta anos.
Numa época funcional, não tinha mais função.
Desapareceu…
A República, 05 de fevereiro de 1959.
Com informações e imagens extraídas do livro Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.
Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.
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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.
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Respostas de 2
Bom dia meu querido Dr cobra
Boa tarde