No dia 3 de outubro de 1930, dia de Santa Terezinha, presente o governador Juvenal Lamartine, algumas famílias e irmandades religiosas, como retro foi dito, em solenidade litúrgica celebrada na Chácara do Bispo, foi lançada a primeira pedra da construção do Seminário. O diocesano oficiou a benção ritualística conforme prescrevia o Rituale Romanum: benedictio primarii lapidis… ut perducatur ad terminum. Seguia religiosamente os preceitos do Concílio Tridentino. Dom Marcolino sempre foi elegantemente muito formalista e primava pela imponência cerimoniosa.
No dia seguinte dedicado a São Francisco de Assis, começou laboriosamente a construção do Seminário. Dom Marcolino trouxe os Irmãos Maristas para Natal e a eles entregou o Colégio Santo Antônio, transferindo os seminaristas para o local da construção. Lá acomodou-os em compartimentos precários. Improvisou salão de estudo e refeitório. O dormitório ficou na casa do vigia, recorda Mons. Expedito. Ninguém reclamava. Fiscalizava a obra quase diariamente: estava sempre à frente de tudo.
Na casa do vigia, nasceu o menino Eymar L’E. Monteiro. Anos mais tarde, entrou no Seminário, fez os cursos regulares e ordenou-se padre. Já nasceu no Seminário. Foi o primeiro capelão do Exército, aqui em Natal. Tornou-se um escritor persistente com mais de 300 livros escritos, uma copiosidade produtiva com a qual se beneficiam os seus leitores.
Na projeção da Cidade Nova, na rua dos Chafariz, havia um terreno reservado para a paróquia de Nossa Senhora da Apresentação, já agora nas vizinhanças do Fomento Agrícola (Cine Rio Grande) onde estudaram os seminaristas, quando vieram da casa de Alberto Maranhão (Aero Clube). Lá pelos idos de 1904, o Padre João Maria começou a construir uma igreja com a intenção de ser a futura Igreja Matriz, quando viesse a diocese. A informação me foi dada pelo ex-seminarista José Coutinho Madruga. Padre João Maria fincou os alicerces em pedra preta e levantou as paredes em tijolo branco. Seus fiéis devotos chamavam a construção de igreja nova, concluiu Madruga. Padre João Maria faleceu em 1905 e a igreja nova envelheceu nos alicerces e paredes: virou ruína. Dom Marcolino mandou dois pedreiros demolir as paredes e transportar os tijolos para a construção do Seminário. Lá os seminaristas os recontavam e os empilhavam simetricamente para melhor ordenação dos trabalhos.
Durante a remoção, houve inconformações, protestos velados e revoltas por parte de beatas e carolas. Na verdade, o bispo não consultara as reverendas irmandades nem as venerandas confrarias; nem precisava. Mas os cochichos lhe chegaram aos ouvidos importunamente e ele não se conteve em suportá-los por muito tempo. Numa missa campal, num sermão autoritário, desabafou perante os assistentes: eu estou demolindo para construir. Zé Madruga estava na missa e ouviu as palavras do bispo. Ninguém mais protestou; e o Seminário se alteava com as ruínas da igreja nova.
Num acordo de cavalheiros firmado entre a diocese e a prefeitura, Dom Marcolino cedeu o terreno temporariamente à municipalidade com o direito de restituição tão logo se pudesse construir a nova Catedral. Lá foi a Praça Pio X, que alguns chamavam na fonética improvisada pióks. E tudo se cumpriu fielmente. No tempo devido, construiu-se, na Pio X, a Catedral, conforme estabelecido e novamente sob protestos de populares desavisados. Dom Marcolino, à proporção que subiam as paredes do sagrado educandário, não confiava em ninguém. Pediu ao engenheiro Otávio Tavares que fizesse a planta mas ele mesmo riscava as dependências, conferia as dimensões e orientava o projeto. Diligentemente, vinha ao local quase diariamente às 16 hs. Sentado numa cadeira à sombra de uma árvore mandava que os seminaristas contassem tijolos e telhas, o que eles faziam sem tirar a batina.
Todas as telhas foram levadas ao teto pelos seminaristas, “num sistema de caminho de formiga”, relembra sorridentemente Mons. Expedito. Naquela época não havia subvenção do Estado para esse tipo de construção. Juvenal Lamartine, entretanto, prometeu ajudá-lo, mas dias depois estourou a Revolução de 30. Lamartine foi deposto e fugiu para Paris.
No dia 3 de outubro irrompeu o movimento revolucionário, exatamente no dia em que se começava a construção. Juvenal Lamartine deixou o governo no dia 5. Acompanhado de Dom Marcolino, conta Mons. Expedito, esteve um dia antes na chácara e de lá retirou-se: exilou-se em Paris.
Depois de muito orientar Otávio Tavares, finalmente este, com a ajuda do Dr. Décio Fonseca, engenheiro das Obras do Porto, conseguiu terminar a planta ao gosto do bispo. Usando de uma “caderneta do Seminário” movimentava todo o Estado, ou seja, a jurisdição de sua diocese. Como não havia fábrica de cimento no Brasil, todo o cimento para a construção foi importado da Bélgica em barrís de “madeira de lei”, muito disputados para depósitos. Esse material importado da Bélgica era uma constante, em Natal daquele tempo. Cascudo afirma que na Vila de seu pai todos os mosaicos eram belgas, como também os canários.
Na foto acima, podemos ver as seguintes pessoas sentadas da direita para a esquerda: Padres Severino Bezerra, Ulisses Maranhão e Agostinho Henneken (o pregador); Mons. Pegado; Dom Marcolino; Mons. João da Mata, Padre José Adelino; Com. Luiz Monte, Padre Pedro Moura e Padre Vicente Freitas.
Seminaristas:
Primeira fila: Samuel Cunha, Adalberto Torres, João Agripino, João Câncio, Ambrósio Azevedo, Alcides Pereira, Genibaldo Barros, José Maria Vilar e José Coutinho.
Segunda fila: Bianor Medeiros, Estanislau Mendonça, Raimundo Barbosa, Vicente Mendonça, Benedito Góis, Virgílio de Maia, Ernani Silveira e José de Almeida.
Terceira fila: José de Almeida, Hilton Cunga, João Dantas, José Agripino e Expedito Medeiros (teólogo).
Quarta fila: José Aquino, Gerardo Barreto, Dioclides Diniz, Mário Feliciano, Paulo Cesarino, Hamilton Macedo e Lindolfo Soares.
Quinta fila: José Coutinho, Vilobaldo Pires, Lívio Dantas, Wilson Câmara, Mário Pacheco, João de Aquino e Guilherme (Teólogo).
1938 História do Seminário de São Pedro
Quando um seminarista perdia a vocação ou resolvia deixar o seminário, chamava-se “chumbado”. Desconfiávamos, mas não comentávamos. Quando ele desaparecia, lamentávamos com certa tristeza. O reitor quase sempre fazia, à noite, na capela, um sermão de advertência com fortes ameaças ao nosso destino e, indiretamente, censurava o “desertor”. O castigo imposto por quebra de disciplina ou negligência nos estudos chamava-se “banca”. Ficar de “banca” era não ter direito a recreio durante dias.
Com informações, imagem e referência ao livro História do Seminário São Pedro, José Melquíades.
Apoie a preservação da nossa história. Anuncie conosco: (84) 99658-8154.
Gostou deste conteúdo? Siga-nos no Instagram: @blogdocobra_

Uma resposta
Excelente texto.