Fazendeiro do Ar

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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14/05/2025 às
18:29

I – Num pedaço de tarde leio quase cem páginas de um livro de memórias que me transporta, magicamente, à vida rural no sertão nordestino da década de 30. Livro fascinante para quem, como eu, nasceu e se criou nesse mesmo sertão, embora já nos anos 40. Refiro-me a “Velhas Oiticicas”, de Pery Lamartine (Natal: Fundação José Augusto, 1991).

Descrevendo costumes, paisagens, fatos e tipos humanos de sua terra – o Seridó velho de guerra -, Pery enriquece, com esta obra, a memorialística potiguar, apresentando despretensiosa contribuição para o estudo da Etnografia e da História, como aliás já o fizera em livro anterior, de sua autoria – “Timbaúba, uma Fazenda no Século XIX.”

II – “Timbaúba” não era uma fazendola qualquer, era “uma das principais fazendas típicas do Seridó do Século XIX”. Fundou-a Gorgônio Paes de Bulhões por volta de 1833.

Pery, que nela viveu em sua infância, apresenta-nos descrição minuciosa, em monografia editada pela Nossa Editora, sob o título “Timbaúba, uma Fazenda no Século XIX”. (Natal, 1984).

Muito interessante esta pesquisa que, dado o seu caráter memorial, não tem aquela frieza de estilo, comum aos estudos etnográficos convencionais.

Pery – um natalense com alma de sertanejo – começa falando sobre o chão da fazenda, as benfeitorias e a casa-grande; passa à criação e aos animais de trabalho (excelente a descrição dos burros do velho Zé Libânio); detém-se numa informação pormenorizada sobre o “vapor” (máquina de descaroçar algodão), a casa de farinha, o engenho, a fabricação de queijos e os trabalhos artesanais; por último, revela-nos o lado humano: figuras populares, costumes e crendices, e dados a respeito dos proprietários.

Com estas notas, Pery Lamartine mostra-se digno da linhagem intelectual a que pertence o seu avô Juvenal Lamartine, autor do admirável livro “Velhos Costumes do meu Sertão”.

III – Em outra vertente do memorialista situa-se “Escape – Estórias de Aviador” (Natal, 1998). Neste pequeno livro, o autor relata fatos que viveu como piloto civil, notadamente em escolas de pilotagem, lá pelos fins da década de 40. Momentos de emoção e suspense, descritos com objetividade, fazem reviver um tempo em que voar ainda era uma aventura.

Na orelha, diz Fernando Hippolyto da Costa: “Mesmo afastado das atividades aviatórias, para se dedicar ao turismo, Pery não consegue esquecer as raízes e, sempre que possível, dedica-se a nos transmitir imagens de uma época gloriosa, relatando para o deleite de todos nós, as suas experiências como instrutor de voo”.

“Escape” aparenta-se com duas outras obras do autor – “O Aeroplano” (Natal: Editora Clima, 1983) e “Epopeia nos Ares” (Natal: Fundação José Augusto, 1995).

IV – Toda pessoa maior de 40 anos possui a sua idade heróica, a sua própria mitologia. Pery Lamatirne tem duas: a infância sertaneja na Ribeira das Espinharas, e a juventude, como piloto civil, numa era de “efervescência aviatória”.

Momentos culminantes destes dois tempos ele evoca, com muita simpleza e espontaneidade, em “O Aeroplano”. Como bem diz Franco Jasiello, no prefácio, “ler “O Aeroplano” é simplesmente desfrutar do prazer”. Pena que a leitura acaba logo, deixando um gosto de venha mais…

V- O título “Epopeia nos Ares” remete o leitor aos capítulos iniciais do livro – notas sobre pioneiros do ar – Ribeiro de Barros, Arturo Ferrarin, Carlo del Prete, Mermoz, Saint-Exupéry, etc., e o papel de Juvenal Lamartine e Fernando Pedroza, fundadores do Aero Clube do Rio Grande do Norte, entidade pioneira no Brasil.

Vivências do autor, como piloto civil, e anotações de viagens internacionais (destoantes, estas) completam o volume, cuja parte iconográfica, com fotografias de pilotos e aeronaves, é das mais interessantes.

VI – Dono de estilo comunicativo, Pery Lamartine exercita, intuitivamente, a palavra, parecendo não observar algumas regras gramaticais. Ciscos,” basculhos” – para usar a linguagem sertaneja – surgem aqui, acolá, no seu texto, mas não chegam a comprometê-lo. Pery toca de ouvido, como todo autodidata. Mas toca muito bem

Com informações e imagem livro: Salvados – Livros e Autores Norte-Rio-Grandenses – Manoel Onofre Jr.

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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.

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