Guarda Negra em Natal

Ana Tersuliano
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26/04/2025 às
08:43

Depois da lei de maio de 1888, libertando os escravos, os monarquistas do Rio de Janeiro lançaram a ideia de criação da Guarda Negra, formada pelos ex-cativos para defesa do trono e reação à propaganda republicana. Não apenas pretos fizeram parte da guarda negra, mas quantos desejavam significar à Princesa D. Isabel admiração ou espírito de cortesania. Os promotores da Guarda Negra procuraram interessar todas as províncias no movimento, determinando a fundação de clubes nas capitais.

Natal possuiu a Guarda Negra, solenemente instalada mas de proveito ignorado.

A sede era na Rua Voluntários da Pátria (Beco Novo) n° 4. A festa inaugurativa se realizou no domingo 10 de fevereiro de 1889, ao meio-dia, com girândolas de foguetões, abundância de promessas, discursos estrondosos e comparecimento avultado. Aproveitando o dia, os idealizadores da Guarda Negra juntaram muitos ex-escravos.

Alguns políticos conhecidos, todos do partido conservador, estiveram presentes e alguns assinaram a ata da instalação, participando da diretoria. A “Gazeta de Natal”, semanário saquarema, em seu no 2-2-89 anunciava:

GUARDA NEGRA. Esta briosa, patriótica e ativa associação, amantes da ordem e das instituições do País, sempre ao lado dos pacíficos e bons cidadãos, e da autoridade legalmente constituída, reunir-se-á, domingo, em casa para isso devidamente preparada, e que será distinguida pela Bandeira Imperial içada à porta para entrada. Haverá música, à recepção de cada um dos ilustres membros defensores da Pátria.

A sociedade tomou a denominação de CLUBE DA GUARDA NEGRA. Alistou cerca de quinhentas pessoas e, encerrada a sessão, percorreram a Cidade em passeata, com foguete e música, vivas e palmas. A diretoria do Clube da Guarda Negra era assim composta: Malaquias Maciel Pinheiro, Presidente: Antônio José Coelho, Vice; Samuel Martins Caldas e Frederico Teodoro de Souza, 1° e 2° secretários; Manuel Peregrino do Nascimento, orador. O Clube teria três comissões. A Comissão Executiva pertencia aos srs. Anselmo Pinheiro da Câmara, João Avelino dos Santos, Manuel Roberto de Oliveira, Bernardo Gomes da Silva e Francisco Olímpio Xavier. A de Sindicância figuram os srs. Joaquim Cotoso, Henrique José de Santana, Luiz José de Santana Bumbum, Félix Isac do Nascimento. A Comissão de Prontidão era constituída dos srs. Joaquim Francisco de Paula, Joaquim Maciel Pinheiro, João Gomes da Costa, José Inácio da Silva, José

Carlos Pequeno e José Miguel da Silva.

Fiéis à coroa imperial vários conservadores figuravam na primeira linha. Foram entre outros, Capitão José Antônio de Souza Caldas, Felipe J.B. Aranha, José Agostinho de Melo, Julião Bento da Costa, Plácido A. Pinheiro da Câmara, Francisco Herculano Álvares da Silva, José Lucas da Costa Sobrinho, José Carlos de Souza Caldas, Caetano José Pereira Solsona, B. A. Simonetti, Antônio Elias, Ivo Cavalcanti, etc.

O que houve de mais original foi a espirituosa maneira com que assinaram, à rogo naturalmente, o nome de dezenas de escravos-cidadãos. Cada um ostentava apelido referente a um republicano norte-rio-grandense em evidência ou prócer nacional da campanha. O Partido Republicano se fundara a 27 de janeiro do mesmo ano, em Natal. As alusões aos republicanos locais são interessantes e escondem, para mim, indicações de fatos comentados na época.

Aqui deixo uma relação de nomes que figuraram na ata: Manuel José de Pedro Velho, José Atestado de Paulino Andrade, João Pestana das Estivas Rangel, João Guimarães da Silva Goianinha, Manuel Augusto Severo da Penha, João Juvêncio Tacino de Bicho Feroz, Antônio do Tição Minerva, Joaquim Honório de Honra e Glória, João Espiridião Martins Júnior, Jorge O’ Grady Lopes Trovão, Napoleão Renegado da Fé, Hermógenes Bastilha Trovão, José Hermógenes Bocaiúva, Pedro Mônaco de Clara Tributo, Heronides Macaca, Francisco Gomes Patacho da Ronha, Manuel Onofre da Tramóia Pinheiro, Francisco M. da Cunha Pau, etc, etc.

O jornalzinho “CURISCO” de alfineteante memória, notificou, com gabos extensos a fundação da GUARDA NEGRA, elogiando a patriótica finalidade. Era, realmente digna de encômio se não a deturpassem no Rio de Janeiro, assoldadando capoeiras e navalhistas, veteranos dos prontuários policiais, para membros ativos, ao lado dos ex-escravos, merecedores de melhor companhia.

Em Natal a Guarda Negra não fez, que me conste, coisa alguma…

A República, 24 de julho de 1940.

Com informações e imagens do livro: Actas Diurnas – Crônicas de Luís da Câmara Cascudo.

Foto da capa: Acervo Luduvicus – Instituto Câmara Cascudo.

Colaboração: Aladim Potiguar – Blog do Cobra.

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