O Zeppelin: A primeira banca de revistas e cigarreira de Natal

Ana Tersuliano
|
29/12/2024 às
22:00

 O Zeppelin de Luiz Cortez foi a primeira
banca de revistas e cigarreira de Natal 

A criatividade de um Ex-gazeteiro que um dia resolveu trazer do Recife
para vender em Natal jornais e revistas do Rio e São Paulo fez surgir entre os
natalenses o hábito da leitura. Essa figura foi Luiz Romão desde os anos 30,
quando inaugurou a Agência Pernambucana, na Ribeira, logo seguido por Luiz
Cortez, instalando a banca de revistas “O Zeppelin” bem no centro do Grande
Ponto. Quando Natal não tinha ainda a Agência Pernambucana, se o natalense
quisesse ler um jornal ou uma revista do Rio e São Paulo, só se um amigo
chegasse de viagem e trouxesse em mãos. Simplesmente, não existiam na cidade
bancas de jornais e revistas. Como o único meio de comunicação era o rádio, o
natalense tinha motivos de sobra para viver “no mundo da lua…”
 

Foi a argúcia de Luiz Romão, fazendo
viagens semanais ao Recife pelo trem da Great Western, que fez o natalense criar
o hábito da leitura de jornais e revistas. Logo depois, surgia a banca “O
Zeppelin” em pleno Grande Ponto, em frente onde hoje está a loja Rabelo. 
Luiz Cortez era o seu proprietário, ajudado pelos filhos Antônio e Ypiranga
Cortez. O nome da banca foi uma homenagem ao dirigível alemão Zeppelin (obra do
conde Ferdinand von Zeppelin), quando cruzou os céus de Natal, em 1939.

Abaixo,
na foto, pode-se ver, da esquerda para a direita, um funcionário do Zeppelin, a
primeira banca de revistas e cigarreira de Natal, ao lado, no telefone, Luiz
Cortez, empresário e proprietário da banca.

Foto: Acervo Família Cortez

Com sua banca, o velho Cortez viu seu
prestígio atingir as alturas. Bastava qualquer acontecimento fora de série no
Rio ou São Paulo, para os fregueses fazerem fila diante de sua pequena banca
aguardando a chegada dos jornais cariocas “Diário da Noite”, “Diário Carioca”,
“Correio da Manhã” e de Recife o “Diário de Pernambuco”, além da revista “O
Cruzeiro”.  Na Copa do Mundo de 50, as pessoas iam de madrugada para
garantir um exemplar de qualquer um desses jornais.

Gradativamente, o leque de alternativas
do leitor natalense foi sendo ampliado, na medida em que outras bancas (já
com o nome de cigarreiras) foram surgindo na Cidade Alta e Alecrim,
àquela altura com um bom número de novas revistas, inclusive para o público
infantil. Este, ganhou revistinhas de nome “Tico Tico”, “Flash Gordon”, “O
Fantasma”, “Dick Tracy”, “Capitão Marvel”, “Ferdinando”, “Gibi”, “Pato Donald”,
“Batman”, entre outras, a maioria ao preço de um cruzeiro.

Para o público adulto, outros títulos
foram surgindo e conquistando novos fregueses. Ainda nos anos 30/40,
surgiram   “A Careta”, que ironizava os políticos com cartuns de
nomes famosos como J. Carlos e K-Lixto, “Vamos Ler”, “Para Todos”, “A Cigarra”,
“Revista do Rádio”, “Scena Muda”, que era voltada somente para os amantes da
sétima arte, “Vida Doméstica”, “O Malho”, que era uma espécie de Pasquim dos
anos 30, “Sport Illustrado” como primeira publicação divulgando o futebol
brasileiro. Voltadas para o público feminino surgiu a revista “Fon Fon”, preços
de capa que variavam entre 500 a 800 réis e, as mais caras, 1.000 réis, na
velha moeda da época.

Mas, a grande sensação pelo menos
durante 10 anos foi o semanário “O Cruzeiro”, dos Diários Associados,
atingindo picos de um milhão de exemplares quando um grande assunto dominava a
população. Cada exemplar era obtido a tapas nas poucas bancas existentes na
cidade. Seu corpo de repórteres e colunistas tinha nomes de peso como David
Nasser, Jean Manzon, José Medeiros, Arlindo Silva, Jorge Ferreira, Ubiratan de
Lemos, o fantástico Joel Silveira, Mário de Morais, Indayassu Leite, Péricles,
Luciano Carneiro, Millor,  Genolino Amado, Carlos Estevão,
Austregésilo de Athaíde, Raquel de Queiroz, entre outros, sob a liderança do
“cacique” Assis Chateaubriand, alusão ao fato de o mascote dos Associados ser a
figura de um indiozinho.

Publicações que conquistaram os
leitores

Segundo o álbum “A Revista no
Brasil”, publicado pela Editora Abril quando dos festejos pelos 50 anos de
atividades da empresa no País são milhares as revistas publicadas no Brasil
desde 1812, ano do lançamento da primeira delas, sob o título “Variedades”.

Posteriormente, outras foram surgindo e
conquistando seu público leitor. As mais conhecidas foram “O Malho” (em 1902,
ironizando os políticos brasileiros), “Tico Tico”  (1905), “Cine Arte”
(1910), “Vida Doméstica” (1920), “Scena Muda” (1930),  “Sport Illustrado”
(1938), “Carioca”  (1935), “Careta”(1935), “Vamos Ler” (1936), “Globo
Juvenil” (1937), “Diretrizes (1934),  “X-9” (1941), “Seleções do Reader
Digest”  (1942,  explorando o filão que era a 2a. Guerra Mundial),
“Grande Hotel” (1947, com  o tema principal sobre novelinhas  bem a
gosto do público feminino), “Revista do Rádio” (1948),  o “Pato Donald”
(1948), “Capricho” (1952), “Visão, “Mandrak”, “Batman”, todas  entre
1952/53. Já no começo dos anos 60 surgiram “Pais & Filhos” “Ele Ela”,
“Veja”, “Desfile”, “Realidade”, “Zé Carioca”, “Fatos & Fotos” bem próxima
de “Manchete”.

A essa altura, a cidade já contava com
muitas bancas de revistas, todas elas chegando ao interior do Brasil
no mesmo dia do lançamento no Rio e São Paulo. Bem diferente dos anos em que
Natal era o que o irreverente cartola e cronista João Machado chamou de “uma
fazenda iluminada”, entre 1920 e 50, quando receber uma revista dessas na
semana seguinte após o lançamento no Rio e SP já era uma vitória. A
fila dos vizinhos que queriam também ler e saber “das últimas” era grande.

Sobre o pioneirismo da banca “O
Zeppelin”, conta-se que Luiz Cortez, querendo atestar a cultura e os bons
costumes do natalense, colocou ao lado de sua banca uma mesa com os
jornais do dia e algumas moedas para troco. Sua frustração foi grande quando
foi verificar o sucesso de sua promoção, alguém havia levado as moedas para o
troco, todo apurado e a própria mesinha. 

Com informações: Redação Tribuna do Norte 30/07/2006, link abaixo:

https://tribunadonorte.com.br/natal/velhas-revistas-sumiram-com-o-tempo/

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