A velha lápide e o primeiro mármore no cemitério do Alecrim.

Equipe de Redação do Blog do Cobra
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04/07/2026 às
08:23

Em julho de 1930 andei umas horas tentando decifrar uma velha lápide encontrada no Cemitério do Alecrim. As letras, cavadas artisticamente, diziam:

Aqui jaz Manuel Lúcio de Brito Gr prestimoso brasileiro esta campa hoje cobre. Era amante do seu Deus, regozijo dos amigos e também abrigo do pobre. Nasceu em 1824 e morreu a 23 de fevereiro de 1857.

A 4 de agosto voltei a carga, levando reforço. Era o Des. Antônio Soares de Araújo, companheiro do Instituto e de manias históricas, e Francisco Gomes de Albuquerque e Silva, Chico Bilro, um grande sabedor das tradições do Natal.

Passamos uns tempos remirando a pedra empoeirada. Não identificamos o morto, homem importante para justificar o túmulo.

Diga-se que não havia mais sepultura. A lápide estava encostada a uma parede.

Chico Bilro lembrava-se que a primeira pedra tumular fora na sepultura de um deputado do Sertão.

O Cemitério é de 1856. A primeira lápide, do ano seguinte. Descobri, relendo a relação dos deputados-provinciais, que existira Manuel Lúcio de Brito Guerra, deputado nos biênios de 1854-55 e 1856-57.

Informações posteriores completaram a história. Manuel Lúcio, sobrinho do Padre Guerra, Senador do Império, nascera em Campo Grande (Augusto Severo) em 1824. Era casado e não deixou filhos.

Encontrei o registro de óbito na Matriz do Natal. Complicava tudo. Pelo registro, Manuel Lúcio de Brito Guerra, morador na Maioridade (Martins), morrera em Natal a 21 de novembro de 1857, sendo encomendado pelo Vigário José Rodrigues Pinheiro, com licença do Vigário Colado, Padre Bartolomeu Fagundes.

Como é que alguém é sepultado em fevereiro e morre em novembro? Enterrado nove meses antes de falecer?

Na Prefeitura do Natal mostraram-me o primeiro livro de óbitos do Cemitério, referente a 1856 em diante.

Lá estava o registro do enterramento de Manuel Lúcio de Brito Guerra.

Morrera, de febre amarela, a 23 de fevereiro de 1857.

A lápide não mentira.

Apenas, depois de tanto trabalho, desaparecera…

Como o assunto é de lápides e sepulturas, vamos contar outro caso.

O mais antigo, o primeiro túmulo de mármore que se ergueu no Cemitério do Alecrim, é o terceiro, à esquerda de quem entra.

Representa uma mulher grega, em atitude de meditação e de cisma, olhando uma urna, a urna bem clássica que devia conter as cinzas.

É o túmulo de Manuel Gabriel de Carvalho, falecido em Natal no ano de 1872.

Veio de Portugal já pronto. A construção do sepulcro foi feita pelo arquiteto Frederico Skinner, a quem devemos muitos trabalhos locais e seu nome o vento levou…

Manuel Gabriel de Carvalho era rábula, advogado sem curso na Academia mas doutor em sabedoria e prática. Ninguém o venceu no foro.

Morava na Praça da Alegria, hoje Praça João Maria, esquina direita com a rua Voluntários da Pátria, nesse tempo “Rua dos Quartéis”.

Manuel Gabriel de Carvalho foi deputado-provincial cinco vezes, de 1842 a 1851. Pertencia ao Partido Conservador.

Falava muito bem, informava Joaquim Lourival.

Seu túmulo é um dos mais bonitos pela simplicidade, nitidez e perfeição.

No meio de tanta vaidade em pedra e em mármore, em cimento e tijolo, ressalta a linha pura d’aquela figura grega, pensativa e concentrada.

Se não estivesse pensando, desde 1872, na morte de Manuel Gabriel de Carvalho, diria eu que ela, sendo grega e sábia, lamentaria, silenciosamente, a existência de tanta inutilidade com que o orgulho dos Vivos enfeita a modéstia dos Mortos…

(7/10/1942)


Com informações livro : O livro das velhas figuras – Luís da Câmara Cascudo.

Foto: Gerada com recurso digital.

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