A primeira feira de Natal aconteceu no Passo da Pátria, próximo ao Rio Potengi, no fim da cidade. Era, na expressão de Palmira Wanderley, um antro de miséria e um passo de dor. Havia de tudo, todos os pecados, e maravilhas: quando o sol vem chegando, “a própria lama põe-se a brilhar.”
Jayme Wanderley, poeta, seresteiro e boêmio, vê assim a feira:
Boca da noite. À luz de lamparinas,
confunde-se, inquieta, a multidão,
bebendo capilé de tangerinas,
comendo peixe frito e camarão,
tapiocas, bejus, grude encocado,
roletes enfiados em palitos,
arroz doce, sequilhos, milho assado,
guloseimas, de gostos esquisitos…
Potes de barro, telhas empilhadas,
canoas carregadas de verduras.
Mulheres, que se vendem, mal trajadas.
Malandros esperando por usuras!
A feira do Alecrim diversa e variada é a feira gigantesca, em que tudo se exibe, compra e vende. Dizem até que solenes e pomposos diplomas da cidade são comprados na feira do Alecrim.
A feira foi iniciada na Rua Presidente Quaresma, (Avenida Um) cruzamento com a Rua Coronel Estevam, (Avenida Nove). Havia animação no bairro. A Paróquia de São Pedro do Alecrim foi criada por decreto diocesano de 17 de agosto de 1919. Quatro líderes comunitários, à frente José Francisco dos Santos, planejam a feira, que foi fundada na manhã de domingo de 18 de julho de 1920. Os feirantes conseguiram do governador isenção de qualquer imposto pelo prazo de dez anos.
Os produtos da feira são, tradicionalmente, de boa qualidade e baixo preço. Lá, são vendidas carnes de boi, carneiro, bode e galinha, coelhos, caças, peixes frescos do mar e de água doce, peixes secos; lagostas, lagostins, camarões, caranguejos, ostras; passarinhos, de belo canto e proibidos pássaros selvagens. Quando não havia preocupação com a fauna em extinção, as barracas vendiam, às centenas, arribações (avoantes aves de arribação) conservadas em sal. Vendem-se ali utilitária cerâmica, potes, jarras, moringas que se chamam quartinhas, peças de ferro velho, de bicicletas a imprevistas ferragens de máquinas. O encanto são as frutas, legumes, verduras, mudas de plantas, lado a lado com barracas de sarapatel, peixe frito com tapioca, beberagens, tabuleiros de gulodices. As barracas atraem cachaceiros e glutões, boêmios de todos os calibres. O beiju envolvido em folha de bananeira ainda resiste. Muitos esperam pelas cinco horas da tarde, a hora do grito. É a hora em que o preço quem dá é o freguês. O feirante não quer levar de volta as sobras. E está pronto para recolher as barracas.
Pesquisa, edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente, e-mail: ricardotersuliano@yahoo.com.br – Colaborador do Blog do Cobra.
Com informações a obra, Natal: uma nova biografia, de Diógenes da Cunha Lima.
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