Histórias de Lobisomens

Ana Tersuliano
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20/04/2026 às
14:04

O historiador Ricardo Tersuliano descreve como surgiam as assustadoras histórias de lobisomem ao narrar um fato real de sua vida, ocorrido no ano de 1985.

Naquele ano, eu morava na praia de Caraúbas, no município de Maxaranguape, e trabalhava como auxiliar de topografia na Queiroz Galvão, na construção da RN-085, entre Pureza e João Câmara. A casa onde os funcionários da empresa moravam ficava no povoado de Dom Marcolino, também no município de Maxaranguape (RN), e, aos sábados, o expediente terminava, às vezes, ao meio-dia e, outras vezes, às 18 horas.

Lembro que, em um desses sábados em que o expediente terminou às 18 horas, fiquei com um primo meu, que também trabalhava na empresa, tomando algumas cervejas até por volta das 21 horas. Nesse momento, encerramos a conta, pois precisávamos caminhar vários quilômetros até a praia de Caraúbas, por uma estrada de chão, longa e muito escura, com mato de um lado e do outro, e casas muito distantes entre si ao longo do percurso.

A cada passo, o vento noturno carregava o cheiro do mato. No meio do caminho, havia a Fazenda Soledade, uma propriedade colossal, com igreja, grupo escolar e cemitério. Acredito que era a fazenda com maior estrutura na época, sendo também centenária de propriedade do saudoso Geraldo Buriti. A noite estava escura, sem lua nem estrelas, uma verdadeira e assombrosa escuridão, e lá íamos nós, receosos e com medo.

Quando nos aproximamos da Fazenda Soledade, havia um plantio de cana ou capim, não lembro bem, pois a noite era muito escura. O vento soprava forte, agitando a vegetação dos dois lados da estrada e produzindo um barulho assustador. Estávamos nos aproximando do cemitério, que ficava à margem da estrada, o que aumentava ainda mais o medo em cada um de nós. Todo o contexto, a escuridão, o isolamento e a ausência de habitação, era assustador.

À medida que nos aproximávamos do cemitério, lembro que havia uma curva, e começamos a escutar um ronco horrível e muito forte. A cada passo que dávamos, o barulho aumentava, e o medo também. Meu primo então disse: “Vamos correr, é um lobisomem! ”. Nesse momento, tive um impulso de coragem e respondi: “Blindal”, como era o apelido dele, “não vamos correr”.

De repente, um animal preto e imenso, parecido com um grande porco, apareceu à nossa frente. Meu medo foi imediatamente transformado em coragem: corri em direção ao bicho e ainda tentei chutá-lo para afugentá-lo. O animal correu para dentro da mata, à margem da estrada.

Passado o susto, falei para o meu primo: “Blindal, é assim que surgem as histórias de lobisomens. Se tivéssemos corrido, chegaríamos nervosos e apavorados à primeira casa que encontrássemos, gritando e acordando todos, dizendo que um lobisomem tinha corrido atrás de nós”.

E foi ali, na estrada em frente à Fazenda Soledade, nas proximidades de um cemitério silencioso, quando o rugido ecoou, que o medo se misturou com a imaginação, mostrando que, às vezes, o que parecia um lobisomem era apenas um porco. Ainda assim, o susto ficou gravado, deixando claro que é dessa forma que surgem as assustadoras histórias de lobisomens.

Texto: Ricardo Tersuliano, colaborador do Blog do Cobra.

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