José Pacheco Dantas destacou-se como cidadão exemplar e figura de grande relevância na história do Rio Grande do Norte. Sua trajetória foi marcada pelo compromisso com o desenvolvimento de sua terra e pela dedicação às causas públicas, consolidando seu nome entre os mais ilustres personagens da memória potiguar.
Nascido em 28 de agosto de 1878, na cidade de Ceará-Mirim, o Dr. José Pacheco Dantas foi batizado pelo venerando Padre João Maria Cavalcanti de Brito em 4 de setembro de 1878, na Igreja Matriz de Ceará-Mirim. Era filho do prestigioso Coronel Felismino do Rego Dantas Noronha, um dos fundadores do Partido Republicano no Rio Grande do Norte, e de Maria Amélia Pacheco Dantas, proprietários do Engenho União, localizado no ubérrimo Vale de Ceará-Mirim, famoso pelo fabrico do melhor açúcar mascavo da região. Contudo, Pacheco Dantas nasceu no Engenho Guarani, também pertencente a seu pai.
Com os preparatórios incompletos, que cursou no Ateneu norte-rio-grandense, Pacheco Dantas embarca em Natal, no Navio “Alagoas” (o mesmo que conduzira o Imperador D. Pedro II ao exílio), para o Recife onde pretendia morar, isto em 21 de março de 1897. Neste mesmo vapor Pacheco Dantas embarcou par o Rio de Janeiro fazendo boa viagem chegando no rio na manhã do dia 29 de março de 1897. No Rio de Janeiro Pacheco Dantas passou por diversas dificuldades. Naturalmente, não tendo dinheiro suficiente para hospedar-se, daí ter ficado a bordo do “Alagoas”.
Posteriormente, sabemos por versão oral, conseguiu acomodar-se num quarto de um companheiro de dificuldades e dormia sobre jornais abertos no chão. Fazia refeições em restaurantes humildes, até que esgotado seu último tostão, com fome, sentou-se numa casa de pasto de baixo nível, pediu o prato do dia e, após o repasto, informado quem era o proprietário da casa, um português que estava no caixa, dirigiu-se a este, travando-se o diálogo:
– Estou informado de que o senhor é o proprietário deste restaurante. Eu sou nortista, estava com fome, pedi o almoço, não tenho dinheiro para pagar, mas não sei furtar. O senhor ordene qualquer serviço para eu fazer em pagamento da comida, como lavar pratos, limpar o chão, o sanitário, qualquer trabalho, pois não tenho dinheiro para pagar, mas não quero dar-lhe prejuízo.
– E o português, compreensivo e generoso, respondeu-lhe:
– Tu és honesto, está-se a ver, ó rapaz. Sempre que tiveres fome, venhas a comer.
Outras vezes lá voltaria Pacheco Dantas para comer, sempre anotando as refeições que fazia e, logo obteve seu primeiro emprego, junta o valor da dívida contraída, vai ao agora amigo proprietário saldar sua conta. Mas o português se manteve em sua nobreza: não aceitou o pagamento. E’ fi8caram grandes amigos.
Episódio que nos foi transmitido pelo próprio biografado, lamentando o autor não ter guardado o nome do bondoso português para homenageá-lo, citando-o integralmente.
No Rio, luta inicialmente com imensas dificuldades e lentamente vai progredindo. Mais tarde, concluídos os preparatórios (nível do atual curso colegial), matricula-se no curso superior. Enquanto estuda, ensina e trabalha. Obtém uma humilde função na Polícia Civil, então chamada “Tambor”, uma espécie de “office boy”, em novembro de 1897. Trabalhou também na Biblioteca Nacional, de janeiro de 1898 a abril de 1900, por nomeação devida ao ilustre Dr. Amaro Cavalcanti, que viria a ser um dos seus grandes amigos.
Ingressa na Capital Federal, nos jornais “Cidade do Rio” e na “Folha da Tarde”, neste, graças aos bons ofícios do Dr. Lopes Trovão, escrevendo sob os pseudônimos de Pensador e Governador. Depois, por mercê ainda do Dr. Amaro Cavalcanti, entra no “Jornal do Brasil” e no “O País”. Iniciara-se no Rio, na imprensa, como simples revisor, galgando a seguir a função de colaborador, chegando mais tarde a redator, diretor e proprietário de jornal. O jornalismo foi uma das suas grandes atividades.
Em face de sua atuação polivalente, passamos a descrever José Pacheco Dantas sob vários aspectos: — o acadêmico, o doutor, o jornalista, o homem público, o intelectual, o servidor público, o cidadão, etc, conquanto tenha exercido tais atividades cumulativamente, ora em conjunto, ora em parte, todavia, é uma maneira ordenada de estudá-lo.
O ACADEMICO – Ingressa ele no curso superior em 1900, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, pela qual vem primeiramente a formar-se, em 1902, em Odontologia e Farmácia. Concluídos estes dois cursos, continua estudante de medicina. Desde acadêmico começa a projetar-se, bem como a interessar-se pelos problemas de sua terra natal, na Capital Federal.
Com efeito, quando da tremenda seca de 1903, sobre cuja calamidade o engenheiro Mateus Nogueira Brandão publicou o livro – “A Seca de 1903” com fundamentado estudo das secas do Nordeste e dos remédios para aliviá-las, vamos encontrar já a presença de Pacheco Dantas. E esse autor faz inserir em seu referido trabalho a “Carta Acadêmica ao Exmo. Sr. Ministro da Viação”, subscrita pelo estudante Pacheco Dantas, então com 24 anos, em que ao tratar dos efeitos dessa calamidade no Rio Grande do Norte, faz sentir a necessidade da
“… construção de estradas de ferro que facultem ao mesmo tempo o trabalho e o meio de comunicação mais fácil aos habitantes do sertão com os do litoral. Existe no meu Estado uma estrada de ferro já em adiantado estado de construção, que em seis meses poderá estar terminada. É a estrada de ferro de Natal, capital do Estado, à ubérrima cidade de Ceará-Mirim…” (13).
E passa o acadêmico a falar sobre as riquezas desse município, de sua potencialidade, do cultivo da terra e de sua produção, para depois sugerir o traçado que a estrada deveria seguir pelo interior deste Estado até ao da Paraíba.
Adiante, continua o acadêmico:
(13) – Mateus Nogueira Brandão – “A Seca de 1903, Leon de Rennes & Cia., Rio de Janeiro, 1903, páginas 113 a 115 – “Carta Acadêmica ao Exmo. Sr. Ministro da Viação”. Ver no Anexo I, reprodução integral dessa Carta Acadêmica.
“Façam-se as estradas de Natal ao Ceará-Mirim e de Mossoró ao São Francisco e terá realizado assim Governo Federal o que presentemente é de absoluta necessidade para salvar milhares de brasileiros condenados à morte certa pela seca atual, e ampará-los de outras no futuro.
A estrada do Ceará-Mirim já está começada e a respectiva planta e relatório dos trabalhos feitos se acham no Ministério da Indústria e Viação.
Assim, esperamos que o digno Sr. Ministro da Indústria, sem perda de tempo, mande executar estas obras como principais medidas de salvação pública naquela região até hoje impiedosamente abandonada e desprotegida, não só da União como do Estado, e cuja laboriosa e aflita população só é lembrada para pagar tributos pavorosos e desumanos ao Município, ao Estado e à União.”.
Ao lado deste apelo ao Governo Federal, o acadêmico Pacheco Dantas mobiliza seus colegas e organiza no Rio “um grande bando precatório composto de alunos de todas as escolas da Capital Federal, com cinco bandas de música” para angariar auxílios para os patrícios flagelados (15).
(15) – “Gazeta do Norte”, Rio de Janeiro, Ano II, número especial, edição de 28 de agosto de 1913, página primeira.
Com o apoio de outros estudantes, organiza ainda o Comitê Central Pró-Famintos do Nordeste, de que foi o Presidente, em nome do qual dirigiu uma representação assinada pelas colônias do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba Pernambuco ao Governo Federal, solicitando a construção da Estrada de Ferro de Mossoró ao Rio São Francisco.
E a cidade de Mossoró comovida, através de comissão de senhoras, passa-lhe uma mensagem telegráfica de agradecimento. Faz mais a cidade: seu órgão de imprensa “O Mossoroense”, edição de 11/12/1903, dedica-lhe toda a primeira página, em que traça seu perfil biográfico, do qual extraímos os seguintes períodos:
“Acadêmico J. Pacheco Dantas
É este o nome do rio-grandense-do-norte, que nos dirigiu o telegrama alviçareiro, que publicamos no Boletim de 2 do corrente.
É este o nome de um moço de 23 anos de idade, que aninha em grande coração os sentimentos grandes de caridade e patriotismo.
Eis, em ligeiros traços, a vida escolástica de Pacheco Dantas, que já se tornou credor dos nossos reconhecimentos pelo modo por que caridosamente, patrioticamente, tem se esforçado por socorros para os vitimados à grande seca que ora nos flagela, e pela construção da ferrovia daqui ao rio São Francisco.
O Rio Grande do Norte espera um grande homem na pessoa de Pacheco Dantas, que hoje nos move ao reconhecimento, como amanhã se há de impor à admiração de todos.” (16).
Pacheco Dantas participou também da Liga Nacional Contra as Secas do Nordeste, pugnando em nome desta para se obter do Governo Federal a drenagem do Vale do Ceará-Mirim, reivindicação esta que foi secundada por um memorial ou abaixo assinado, firmado pela maioria dos rio-grandenses-do-norte, residentes na Capital da República.
Foi, ainda, Presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina do Rio, Diretor da Revista “Escola Médica”, órgão dos estudantes de medicina, 1°. Secretário do Clube Acadêmico e sócio efetivo da Federação de Estudantes Brasileiros.
O DOUTOR — Os cursos de Odontologia e de Farmácia conclui, em 1902, na antiga Faculdade de Medicina, situada na Rua da Misericórdia, no Rio. Mas, somente em 1905, na mesma Escola superior, é que vem a colar grau em medicina, apresentando perante banca examinadora especial sua tese de doutoramento Sífilis e Casamento em que preconiza a necessidade do exame pré-nupcial, o que não só era revolucionário para a época, como provoca certo escândalo socialmente, se bem tenha sido plenamente aprovada e recebido os melhores elogios dos meios científicos.
Doutor em medicina, visita o Estado, indo ao Ceará-Mirim, onde vem a contrair núpcias a 2 de maio de 1906, no Engenho Guaporé, com a senhorita Isabel da Cunha Pacheco.
(16) “O Mossoroense”, Ano II, número 37, página
la., edição de 11 de dezembro de 1903.
Por merecimento, José Pacheco Dantas é patrono da Biblioteca Pública de Ceará-Mirim e do trecho ferroviário Natal–Ceará-Mirim, denominado “Ferrovia Dr. José Pacheco Dantas”. A denominação foi estabelecida pelo Projeto de Lei nº 6.699/2013, cuja pesquisa histórica foi elaborada pelo historiador Ricardo Tersuliano. O projeto foi apresentado e aprovado, à época, pelo Deputado Federal Felipe Maia.
Com informações e Imagens livro: José Pacheco Dantas (Centenário 1878- de-1978 nascimento – Hélio Dantas.
Pesquisa e edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente – e-mail: ricardotersuliano.iaphacc@gmail.com – Colaborador do Blog do Cobra.
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