Quando Dom Marcolino assumiu a cátedra episcopal, em 1929, já encontrou, na rua Apodi com a Campos Sales, esse grande sítio arborizado: árvores frutíferas, pés de coqueiros, mangueiras, cajueiros. Dentro do sítio estava uma casa grande, alpendrada, confortável. Essa casa identificava-se como quinta ou sítio do bispo. Granja é de recente aplicação. O sítio era local de repouso ou veraneio reservado ao diocesano. Dom Marcolino apelidou-o de Chácara do Bispo; e na chácara resolveu construir o Seminário.
O casarão tinha frente para a rua Apodi e ficava recuada uns 20 metros. Era todo cercado de arame farpado com um enorme portão de entrada. Nessa entrada, ao lado direito, ficava a capela episcopal, ampla, com bancada e acomodação para uns 30 fiéis. A capela atual é completamente nova. A primitiva foi demolida. A casa foi destruída para em seu lugar ser construído o Lar do Clero cujos alicerces foram iniciados precariamente por Dom José Pereira Alves. Foi apenas um ensaio sem grande progresso e pouco alongamento. Quanto ao Seminário, tudo começou no dia 29 de junho de 1930, dia de São Pedro. Houve missa solene e o anúncio da construção. A construção propriamente dita só teve início no dia 3 de outubro do mês seguinte, com a benção da primeira pedra, a presença do Governador Juvenal Lamartine, autoridades, irmandades e “muita gente”.
A cerimônia começou às 9:00 horas da manhã. Um dia festivo dedicado a Santa Terezinha do Menino Jesus. O Tirol, nesse tempo, ainda era um descampado despovoado. No início desse século, chamou-se Cidade Nova. O bairro fora idealizado por Pedro Velho, mas tudo não passou de um sonho hípico quando ele, Pedro Velho, montava seu cavalo de estimação e troteava pelo descampado. Pedro Velho morava numa chácara chamada Solidão, localizada nas imediações da Escola Doméstica, na Avenida Hermes da Fonseca de hoje. Deixando o cavalo, tomava uma aranha (charrete) tendo ao seu lado o velho amigo Joaquim Manuel Teixeira de Moura, na intimidade Quinca.
Quinca Moura, quando intendente (prefeito – 1903), já na administração de Alberto Maranhão, irmão de Pedro Velho, resolveu projetar a Cidade Nova, o que veio a ser o Tirol de hoje. Entregou o projeto a Jeremias Pinheiro da Câmara e este traçou e demarcou o alinhamento das ruas.
O novo bairro vinha no prolongamento de Petrópolis, começando na Quinta dos Cajuais, a chácara de Antônio de Sousa, depois Praça Pedro Velho, atualmente a inodora e mutilada Praça Cívica. Espreguiçava-se até a residência de Alberto Maranhão (Aero Clube) e ali terminava a cidade pelo lado sul. Esse limite continuou até 1950; lá ficava o Posto Fiscal policiado pela Guarda Civil e a cidade era separada por uma corrente, o que permaneceu até bem pouco tempo.
A Cidade Nova limitava-se pelo lado norte com a Baixa da Égua, que o Padre João Maria mudou para Baixa da Beleza, na subida do Baldo, com sua torrente e sua fonte borbulhante. Fim da Cidade Alta, começo do Alecrim. Até 1905, piscina natural com arborização abundante, espécie de balneário onde os boêmios inveterados faziam serestas, no alvorecer deste século que já começa a crepuscular. Os últimos foram Lourival Açucena, Gotardo Neto e Ferreira Itajubá. A Cidade Nova descia nas imediações do Baldo e seguia, pelo lado sul, nas proximidades da praça Tamandaré atual. O novo bairro saído do projeto de Quinca Moura era o imenso planalto arenoso com muitos coqueiros, cajueiros, mangabeiras e outras árvores de grande porte. O nome Tirol surgiu aleatoriamente, anos depois, sem grande sentido, na lembrança dos que tinham visões da Terre Verte da Áustria.
Até 1930, esse frondoso planalto, às vezes um tabuleiro, pertencia a 5 ou 6 proprietários: Herculano Ramos, Joaquim Manuel, Olavo Galvão, Manuel Machado e outros. Prevalecia o gosto pelo topónimo quinta ou chácara: a casa de campo, idilicamente arborizada de onde nos vem quintal, pequena quinta com jardim e horta geralmente nos fundos da casa. Granja é coisa recente, um galicismo mal aplicado à chácara ou ao sítio. Na França grange era un bâtiment où serre céréales en gerbes.
O casarão de Herculano Ramos, na extensão da rua Apodi, chamava-se Vila Amélia. O Cel. Francisco Cascudo comprou-a em 1913 e lhe mudou o nome para Vila Cascudo. Passou a ser o dono de “três – quartas partes do quarteirão”, informa seu filho Cascudinho, que lá se criou.
A Chácara do Bispo ficava vizinho à Vila Cascudo. As doações de terrenos feitos a entidades religiosas não eram iniciativas do Estado mas sim, de particulares, grandes proprietários de terras. A viúva de Juvino Barreto doou, em testamento, o patrimônio de sua chácara, na Ribeira, à Ordem de Dom Bosco. Onde fora uma fábrica de tecidos com 40 teares, hoje é o Colégio Salesiano, graças à santidade da viúva.
O Cel. Francisco Cascudo e João Galvão Filho fizeram doação de terreno para a construção da igreja Santa Terezinha, segundo escreveu Mons. José Alves Landim, nas anotações do Livro de Tombo. A construção da igrejinha começou em 1925, consequência de um voto feito pelo devoto Abdon Macedo. Teve a aprovação de Dom José e autorização para chamar-se Capela de Nossa Senhora das Graças. O virtuoso Abdon ainda trabalhou 2 anos nos alicerces. Somente em 1927 é que Dom Pereira Alves consentiu que Santa Terezinha fosse a titular da capela com o título de Santuário de Nossa Senhora das Graças de Santa Terezinha. Veja-se Mons. Landim: Sob A Poeira dos Caminhos. Todos esses informes se associam à diocese e ao Seminário, encantos e ornamentos da rua Apodi, nas primeiras décadas desse moribundo século.
Mas antes de tudo isso, o século XX amanhecia, engatinhava e Natal prosperava incipientemente. Em 1904, o plano urbanístico da Cidade Nova estava concluído, no eixo Petrópolis-Tirol, assegura Cascudo. No arisco, havia algumas choupanas que foram desapropriadas a preço baixo. Elias Souto, que tinha um jornal e sempre fez oposição a Pedro Velho, ao considerar injustiças nas desapropriações, chamou a Cidade Nova de cidade das lágrimas. Elias Souto foi sempre um crítico desabusado e viveu sempre às turras com a política de Pedro e seu irmão Alberto. Pedro Velho, quando governador, para apoiar Floriano Peixoto, criou uma milícia composta de funcionários públicos, todos fardados de verde, uma divisão chamada Batalhão Silva Jardim. Elias Souto não contou história: atacou o batalhão com espingarda de chumbo grosso, única arma de que dispunha: colocou os verdejantes na mira e atirou, chamando-os de tapacu de serrote. Tapacu era o nome dado pelo sertanejo ao periquito verdelinho. A espingarda era o seu jornal. E assim engatinhava o século, na formação da Cidade Nova, o próspero Tirol do século que agora agoniza.
No começo deste século, os bons católicos, proprietários de terras, costumavam fazer, por testamento, doações generosas aos santos de suas devoções. No caso do Sítio do Bispo, a diocese não gozou desse privilégio. Conforme retro ficou esclarecido, o terreno da rua Apodi foi adquirido por compra e venda, ‘em terreno foreiro do patrimônio municipal’, compra essa feita ao foreiro, aquele que tem o domínio útil do terreno. As vezes, essas transações entre foreiros criam problemas na legitimidade da posse. A diocese, graças a Deus, não os teve.

Sentados: da direita para esquerda:
Guilherme (teólogo), Padre José Adelino, Dom Marcolino, Padre Severino Bezerra e o Diácono Alair Vilar.
Seminaristas:
Humberto Ramos, Paulo Bezerra, Aderbal Vilar, José Nazareno, Tales Fernandes, Luciano Quermógenes, Firmino Medeiros, Francisco Torres, Sérvulo Pires, Lívio Dantas, Hamilton Macedo, Bernardino Quité, Firmino de Medeiros, Bianor Medeiros, Sinval Laurentino e Paulo Cesarino. 1936
Com informações e imagem livro: História do Seminário São Pedro – José Melquíades.
Foto Seminário: Canindé Soares
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Aladim Potiguar, colaborador do Blog do Cobra.
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