Nasci no Rio de Janeiro e com o prematuro falecimento de meu pai, vim com minha mãe e meus dois irmãos para o Rio Grande do Norte, indo residir na Fazenda Juazeiro, do meu avô Eduardo Gurgel, localizada no Município de Santana do Matos.
Em julho de 1930, com nove anos incompletos, mudei-me para Natal, passando a residir na casa do meu tio Manoel Gurgel, onde permaneci até março de 1944. Aqui iniciei o curso primário no antigo Colégio Santo Antônio, dos Irmãos Maristas. Recordo-me do Natal daqueles bons tempos e de como era nossa vida nesta terra de costumes rotineiros, com as pessoas se cumprimentando e se visitando amiudadamente.
Os bondes elétricos da Companhia Força e Luz faziam o transporte urbano. Andava-se de bonde da Ribeira ao Alecrim e à Lagoa Seca. E ainda a Petrópolis e ao Tirol. O passeio preferido era até a “Balaustrada”, no fim da linha de Petrópolis, para descortinar a paisagem, principalmente nas noites de lua. No trajeto, havia a “Mata de Petrópolis”, uma espécie de reserva ecológica, que assustava as crianças à noite, pela escuridão de seu interior. Ficava em grande área de terreno, em frente à Maternidade “Januário Cicco”.
As praias de veraneio eram Areia Preta, Praia do Meio e Redinha. Destas, a mais famosa nos anos 30 e 40 era a Redinha, com seus encantos naturais e com seus botes a vela, fazendo o transporte de passageiros e de carga, entre o Cais da Praticagem, no começo da parte norte da Rua Chile e a praia. Quem não se recorda do “São José”, o elegante, seguro e confortável bote de duas velas do Mestre Brasiliano? Vale lembrar ainda, as Festas de Nossa Senhora dos Navegantes, as excursões de veranistas à Praia de Genipabu, ao Rio Doce e ao Forte dos Reis Magos. E também os animados bailes do velho Redinha Clube!
Quanto aos cinemas do começo dos anos 30, havia o “ROYAL”, o “POLYTEAMA” e o “CARLOS GOMES”, este no teatro de mesmo nome, hoje Alberto Maranhão. Depois, no Alecrim surgiu o “SÃO PEDRO”. Foi neste cinema, que a 14 de abril de 1931 foi exibido o primeiro filme falado em Natal. Tratava-se de “O General Clark”, com John Barrymore e que causou grande sensação. Estive presente ao histórico acontecimento, em companhia de minha mãe e de meus dois irmãos Gerardo e Maria de Nazareth. Anos depois, apareceriam outros cinemas como o “REX”, inaugurado em 18 de julho de 1936 e mais modernamente o “RIO GRANDE” e o “NORDESTE
Na década de 30, os desportos de prestigio eram o REMO e o FUTEBOL. Sem dúvida nenhuma, o Sport, o Centro, o ABC e o América polarizavam e dividiam as preferências de nossa sociedade. Não havendo a proliferação dos atrativos dos nossos dias, incluindo bares e barraquinhas nas praias, “boites” e a própria televisão, com sua parte malsă e deseducativa, os jovens buscavam no Remo na Natação ou no Futebol a opção sadia para os seus momentos de lazer. Assim, as águas do Potengi brindavam com fortes emoções a sociedade do Natal dos meus verdes anos, com espetáculos inesquecíveis de raça, destreza, vigor e vibração dos intrépidos remadores e nadadores do SPORT e do CENTRO, na luta heroica pela vitória de suas cores. O mesmo poder-se-ia dizer de grandes partidas de futebol, entre os tradicionais rivais América e ABC, no velho estádio da ARA, hoje “Juvenal Lamartine”, que tanto emocionaram aficionados e torcedores da velha guarda, inclusive o elemento feminino, sempre presente em todas as competições desportivas da época, com sua graça, beleza e simpatia.
Do ponto de vista urbanístico, o Natal de minha meninice desapareceu. Na Avenida Rio Branco, onde morei por duas vezes, tudo está mudado. Inicialmente, morei em uma casa vizinha ao antigo quartel do 29º Batalhão de Caçadores, há anos destruída e depois num velho casarão no número 702, onde se encontra a sede do BANESPA. Hoje a Avenida Rio Branco é centro comercial. Quando aqui cheguei, o seu calçamento era daquela pedra escura de formação de coral, igual à existente na antiga “Ladeira do Sol”. O bairro da Ribeira, que já foi também residencial, tornou-se empório de comercio atacadista, com Bancos, escritórios e oficinas. As residências das ruas Princesa Isabel, João Pessoa, Ulisses Caldas e avenida Deodoro desapareceram, cedendo lugar a luxuosos magazines casas de miudezas. Pelos lados do Tirol, o Aero Clube deixou de ser o último reduto e a Lagoa de Manoel Felipe não é apenas um reservatório líquido, em meio à mata desconhecida e agreste. No bairro de Petrópolis, na chamada “Cirolândia”, onde moro há quase trinta e seis anos, desapareceu o grande plantio de cajueiros, dentro de um cercado de arame farpado, de propriedade do Coronel Romualdo Galvão, e ali mesmo, onde se ergue a bela residência do Comandante do III Distrito Naval, na Avenica Hermes da Fonseca na antiga “Solidão”, não existe mais a pequena duna de area branca com a casinha de palha, onde moravam as duas velhas lavadeiras do meu tio Manoel Gurgel do Amaral, que por tantas vezes visitei para pedir que apressassem a entrega de seus ternos brancos impecavelmente lavados e engomados.
Éramos nos começos da década de 1930, uns 40.000 habitantes, vivendo em uma cidade simples, hospitaleira e boa. Assim era o Natal “da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais”.
Texto publicado, inicialmente, em O POTI 1º de abril de 1990 e, posteriormente, incluído no livro “PELOS CAMINHOS DO CIVISMO”, do Professor José Guará. Revisto pelo autor em 6 de outubro de 1998).
Com informações e Imagens livro: Depoimentos – José Guará. Pesquisa e edição: Ricardo Tersuliano – Historiador Independente – e-mail: ricardotersuliano.iaphacc@gmail.com – Colaborador do Blog do Cobra.
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